Kick Ass - By Klaus Hasten.
Quando a sétima arte ultrapassa seus cem primeiros anos, é de se imaginar que a propriedade única e maravilhosa deste ramo de se inovar ia acabar sendo extinta aos poucos. Após uma década que pode ser considerada pobre em relação à originalidade, uma década aonde em pouco tempo vimos a ascensão do gênero de filmes baseados em super-heróis e logo depois seu desgaste com seqüências desnecessárias, temos a prova de que existe sim uma luz no fim do túnel.
Levando o gênero do antipoliticamente correto ao extremo, o diretor Matthew Vaughn (Stardust) busca na comicidade carregada de inteligência da recente graphic novel de Mark Miller, expor para o público o que leva uma pessoa a se sacrificar pelo outra. Dave Lizewski (Aaron Johnson) é um garoto comum, sem nada de extraordinário, e essa simplicidade é a verdadeira beleza do seu caminho percorrido ao longo do filme. Menosprezado como Peter Parker, com a baixa auto-estima de Bruce Banner, o nerd Dave tem sua vida entrelaçada com os quadrinhos que tanto adora a partir da inocente, porém óbvia, indagação: Por que ninguém tentou ser um super-herói na vida real?
Ao vestir seu uniforme verde, Kick Ass percebe que nem tudo é feito de nanquim, nem tudo é passivo a uma borracha, e sua vida é totalmente mudada a partir do primeiro vislumbre da realidade cruel das ruas de Nova York. Lizewski busca pela justiça, valor perdido que tem sua decadência bem impressa na película, busca por reconhecimento, e finalmente, busca por autoconfiança, sentimento que à medida que ele vai ganhando, dá energias para o trabalho inocente, mas eficiente ao tempo que conscientiza as pessoas que esquecem de olhar pelos outros.
Se já não bastasse a louvável jornada de Kick Ass, o filme conta com coadjuvantes extremamente bem trabalhados, tanto em cenas de ação quanto cenas emotivas. Destaque mais do que merecido para Chloe Grace Moretz, como a indescritível Hit Girl, que rouba completamente a cena ao aparecer com seu modo “bad ass”, sem poupar palavrões ou golpes criativos para matar, mas também sem deixar de expressar o jeito alegre e divertido de uma garota de onze anos. É impressionante ver tanta desenvoltura e habilidade de convencimento em uma atriz tão jovem, que passa seu tempo livre alternando entre filmes como Kill Bill e o treinamento com armas extremamente mortais.
É ela, Hit Girl, que ao lado do seu pai e mestre, Big Daddy, mostra para o nosso herói que seu trabalho de combate ao crime não é inútil. Após um trauma que abalou as estruturas de família, Big Daddy (Nicolas Cage, colocando em prática sua devoção por HQs) decide sujar suas próprias mãos, e a infância da sua filha, para acabar com o chefão do crime Frank D’Amico. Esse ramo da trama ajuda a incrementar os diversos fatores que levam pessoas normais a tomarem para si a responsabilidade de fazer o mundo um lugar melhor.
Red Mist (Christopher Mintz-Plasse, o eterno Mcloving) consegue mostrar o oposto sem perder a profundidade de um personagem com seus motivos e sua vida difícil como a face da vida real do pobre-garoto-rico Chris D’Amico (filho do próprio vilão). Sempre à margem da sociedade, seja pelas barreiras impostas pelo pai de uma vida normal ou do próprio pai em relação as suas atividades profissionais, precisou dos quadrinhos como refúgio, e foi de lá que conseguiu na vida real, assim como Dave, melhorar sua auto-estima, mesmo correndo pelo sentido contrário.
Excelentes referências podem ser observadas, que vão do cinema clássico, com cenas memoráveis embaladas pela trilha eclética e bem pontuada, destacando a seqüência assinada por Ennio Morricone que já nasceu épica, até jogos e séries de TV como Lost e Batman (de novo Nicolas Cage carimbando sua paixão com uma homenagem a Adam West). Todos esses pontos são alicerces para convidar o expectador a se sentir em casa e se colocar no lugar daqueles personagens que chegam a ser palpáveis de tão bem construídos.
O grande truque utilizado para a grande aceitação do público e o envolvimento com a platéia foi a expectativa. Os zooms que precediam as grandes cenas de ação, as respirações, tudo foi trabalhado com intuito de deixar aquele que está assistindo com a os olhos grudados na tela como os dedos nas páginas de um livro excitante. Kick Ass consegue revelar a verdadeira essência do que é ser um herói, no mais intimo significado da palavra, sem perder o toque de humor inteligente e afiado.
Com um tom tão divertido e inspirado, é difícil prestar atenção nos pontos negativos, como os vilões extremamente caricatos e as situações que passam o limite da forçação. Não é preciso se esforçar para a trama, juntamente com a direção mágica de Vaughn e sua mistura ousada de estilos, envolver o mais chato dos críticos e fazer os ratos de salas de arte se renderem a pipoca gostosa e amanteigada oferecida por Kick Ass.
Nota: 9.0


2 Comments:
(: fico feliz por você estar tão satisfeito com um filme, e ainda mais por escreve essa critica, adorei compartilhar cada passo seus até agora e com certeza muito outros estão por vir!
de fato, o filme é incrível. concordo com cada palavra dita. :) gostei de absolutamente tudo neste filme.
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