sexta-feira, abril 09, 2010

Quincas Berro D'Água - By Klaus Hasten.



O que define um verdadeiro “auteur” na arte do cinema é a sua paixão pelos filmes e sua necessidade de estar sempre evoluindo na qualidade dos seus longas. Situado cerca de 50 anos antes do seu primeiro filme “Cidade Baixa”, o diretor Sérgio Machado mantêm suas raízes no universo baiano, proporcionando uma história sem estereotipo ou falas carregadas demais, deixando seus diálogos sempre naturais.
Baseado na obra de Jorge Amado, “A Morte e a morte de Quincas Berro D’Água”, o filme trata basicamente sobre a morte e suas conseqüências nas vidas dos outros e na própria trajetória do morto, aqui, um “comandante” da boemia que morreu sem poder desfrutar da sua última festa de aniversário. O recurso da história não linear, com diversos flashbacks ajuda no aprofundamento do psicológico de cada personagem, chamando atenção pro prelúdio da saga épica de Quincas rumo à vadiagem, quando ainda era um homem de família conformado e patético.
Não necessariamente por acaso, temos o excelente Paulo José interpretando nosso herói, e parecidíssimo com o próprio autor que escrevera a obra baseada, temos aqui o próprio alterego do Jorge Amado, escritor cheio de vida que marcou as páginas brasileiras com seu encanto e irreverência. Logo após a morte, recebemos as visitas da família rica e tradicional que Quincas abandonara e também dos não-tão-tradicionais amigos malandros dele, iniciando o conflito entre burguesia e “plebe”.
É interessante analisar a reação de cada um dos personagens diante do acontecimento, da filha Wanda e seu marido pragmático e insuportável vemos a constante necessidade de manter a pose e a calma diante da morte, dos amigos da cidade baixa observamos a negação constante, e é a partir deste fator que se inicia a trama do roubo do cadáver, que saiu por ai para se divertir com os companheiros.
Apesar de certos exageros por parte do humor escatológico, temos aqui uma comédia leve e sutil, não apenas uma comédia por comédia, mas um drama observado por uma lente cômica. Destaque para esses momentos da linha tênue encontrada por Machado entre drama e comédia são as interpretações de Luis Miranda e Frank Menezes, o bêbado otimista e o palhaço poeta e melancólico, colocando em cena os momentos mais intensos dos colegas de cachaça de Quincas.
A parte técnica é um espetáculo à parte. A fotografia e os recursos especiais são efeitos que são incorporados na tela como verdadeiros personagens, Salvador cria vida na mão dessa produção. Sérgio Machado, cinéfilo assumido, coloca a verdade triste dessa sociedade hipócrita, embutida em divertidas ironias, honrando suas influências na Novelle Vague ao mostrar ao mundo sua cidade aos olhos de seus próprios moradores, filhos de um homem de coração enorme como Quincas.
O resultado de todo esse trabalho é um filme inovador no contexto nacional. Saímos do clichê dos filmes de favela e violência e deslumbramos algo realmente novo, que nos é provado desde a introdução animada, até os dilemas mais profundos, como o vivido pela personagem de Mariana Ximenes em busca da verdadeira felicidade. Ao final de tudo, provo minha equivocação ao rotular o longa como um filme de morte, sendo na verdade uma genuína lição de vida.

Nota: 8,5

3 Comments:

Blogger Shot to click said...

Adorei! clap clap
Gostei do filme ainda mais, pelo que eu tinha comentado com você antes. Eles soube tratar da 'baianidade' de uma folga sutil, que não deixou vulgar.

sex. abr. 09, 10:38:00 AM 2010  
Anonymous Amanda Aouad said...

Também gostei muito do filme, me surpreendeu. Baiano sem exageros, fiel ao universo que Jorge Amado eternizou.

sex. abr. 09, 03:31:00 PM 2010  
Anonymous Filipe de Paiva said...

Olá!

Meu nome é Filipe de Paiva e trabalho na agência publicitária Núcleo da Idéia Comunicação. Gostaria de um e-mail para que possamos entrar em contato direto. Por favor, envie para mkt4@nucleodaideia.com.br

Aguardo resposta e agradeço pela atenção.

qua. abr. 14, 09:00:00 AM 2010  

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