THE TORCH

domingo, julho 17, 2011

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Por Klaus Hasten.




      Quem é Harry Potter? Um garoto bruxo, aprendiz de feitiços, poções e artefatos mágicos? O grande erro de todos, e nisso incluo produtores, espectadores e fãs, é se ater unicamente a mitologia, belíssima diga-se de passagem, mas que representa apenas a superfície do universo profundo criado pela escritora J.K Rowling. A divisão do seu último livro, “Harry Potter e as Relíquias da Morte” em duas partes teve um papel que adoto como meu nesse momento, de trazer humanidade a análise dos personagens ali citados e, ao invés de dividir, eu junto suas metades gêmeas em um só filme de essência própria para construção desta critica.
      Partindo como um segmento direto do final de “Harry Potter e o Enigma do Príncipe”,  “As Relíquias da Morte – Parte 1” trás um início melancólico, já em evidencia pela trilha de Alexandre Desplat que embala o travelling ao logo em ruínas da Warner Bros, a tempestade ao seu fundo implica a seriedade do que viria a ser tratado. Alvo Dumbledore está morto, algo que já nos é lembrado logo no começo, e a responsabilidade de destruir Lord Voldemort e os sete fragmentos de sua alma, Horcruxes, cai nos ombros de Harry, Rony e Hermione, agora, adultos.
      “Nosso mundo não viu ameaça maior”, diz Bill Nighty em sua participação como o Ministro da Magia Rufus Scrimgeor, e realmente, ele está certo. O nível de periculosidade não diminui nem nas cenas mais descontraídas, transformando as risadas descontraídas de outrora em risadas nervosas do estresse causado pelo clima de tensão estabelecido pela direção pontual de David Yates, responsável pela franquia desde seu quinto volume, “Harry Potter e a Ordem da Fênix”. Mesmo em seus derradeiros filmes, Yates não poupa sua câmera de uma direção experimental, calma quando é requisitada uma atenção maior para as falas cada vez mais bem escritas pelo roteirista Steve Kloves, e uma nervosa câmera na mão em cenas de ação, tremendo ao ponto de transportar de vez o espectador para a batalha.
      E incrível é notar a naturalidade de transições de cenas de ação para as mais calmas, elas se misturam entre si pelo excelente fechamento estabelecido pela química entre a direção de Yates e a montagem do premiado Mark Day, colega recorrente do diretor. Aqui percebemos cenas calmas, de paisagens vastas e fotografia morta, onde o ritmo lento não tira nem um pouco seu nível de tensão, dando uma aula de cinematografia ao ensinar a todos que tensão não é uma ferramenta exclusiva das cenas de ação rápida e batalhas, mas uma ferramenta de qualquer bom diretor na hora que lhe for conveniente.
      Ao ficarem foragidos pelo ministério tomado pela Marca Negra de Lord Voldemort, Harry, Rony e Hermione entram em uma viagem perigosa de decepções, tristezas mas ao fim, autoconhecimento. Se antes víamos apenas atos superficiais, tanto de roteiro quanto de atuação, nos primeiros conflitos do grupo no início da franquia, agora enxergamos seriedade nas rachaduras daquela amizade que enferrujava a medida que eram obrigados a se aprofundar cada vez mais naquela jornada. São momentos secos, mortos, em que a bela trilha de Desplat  recorre ao silêncio, dando cacife a atuação do trio.
      Nessa primeira parte, observamos a consolidação de Emma Watson (Hermione) como uma das melhores atrizes da franquia, sendo o peso posto em cima dela agora, maior do que nunca. O equilíbrio do trio, cada vez mais instável, obrigatoriamente caiu sobre o lado feminino, sendo Harry e Rony dois pólos que inevitavelmente, pelas diferenças claras de personalidade, acabam entrando em conflito. Daniel Radcliffe (Potter) apesar de suas limitações como ator, demonstra uma afeição verdadeira pelos seu companheiros de cena, fruto de um trabalho intenso de uma década, enquanto Rupert Grint consegue alternar bem entre seu papel de alivio cômico, mas sem perder a complexidade de um personagem, uma pessoa cansada de ser tratada como coadjuvante, recebendo aqui sua merecida atenção.
      Apesar da boa dosagem em seus ingredientes, é perceptível na primeira parte alguns exageros referentes a comédia e a gama de informações que precisam ser apresentadas ao espectador. As reuniões entre os comensais da morte e seu líder, Voldermort, tendem a ser sufocantes pelo nível da atuação de grandes exemplos envolvidos como Ralph Fiennes (o próprio Lord das trevas) e Helena Boham Carter (Bellatriz Lestrange). Certos pontos dessas cenas acabam sendo sabotados por um humor que, voluntário ou não, transmite uma maldade superficial. Algo que também sabota o clima do filme é a necessidade de passar informações rapidamente, sem crença no que está sendo posto. Uso como exemplo as falas de Gui Weasley e Mundungos Fletcher no início do longa, personagens que chegam atrasados na franquia em relação ao livros e precisam se explicar de forma corrida.
      O fraco clímax na Mansão Malfoy soa estranho analisando “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1” como um filme só, pelo seu ritmo quebrado e sua tensão que diminui ao invés de crescer, sendo concluído em uma cena linda e triste na praia com a câmera na mão, algo naturalista demais para um blockbuster de verão. No fim, ele é apenas o meio de um filme só, apenas mais uma barreira a ser vencida para o verdadeiro clímax imposto pelo Parte 2, sendo ele próprio no fim, um grande clímax da franquia de oito filmes.
      Se em sua primeira parte, não vemos Hogwarts, nada mais justo do que iniciar o primeiro plano de seu derradeiro filme com uma vista aérea do lugar que se tornou a casa de não só do órfão Harry Potter, mas de tantas crianças e adultos ao redor do mundo que sentiam falta do amor, esse sim, o verdadeiro protagonista da franquia. E onde outrora víamos nuvens bonitas em contraste com o céu azulado, vemos um clima cinzento, com torres cercadas por Dementadores e corredores vigiados por Comensais da Morte. Alunos marcham no terreno inóspito que se tornou a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, não era mais o lar deles, era uma prisão.
       Os olhos analíticos do agora diretor Severo Snape passam da movimentação abaixo de sua torre para o horizonte e seu futuro imprevisível. Todos se preparam para a inevitável batalha final, cada um sentindo a dor prematura do que é poder morrer a qualquer momento... Ninguém é imortal. Vários planos intercalados dos personagens, rimando com o clima do final da primeira parte, precede os diálogos, novamente, muito bem escritos por Steve Kloves pela sua objetividade e naturalidade, uma evolução ao comparar com os roteiros demasiadamente expositivos do início da série.
      O humor infantil diminui, e tende inclusive a seguir um pouco o lado negro, com cenas fortes e respostas inteligentes de fala e câmera. A entrada em Gringotes, protagonizada por uma Helena Boham Carter travestida de Hermione que por sua vez assume a forma de Bellatriz indica novamente a competência da atriz por saber lidar com a complexidade da frase aqui dita previamente. Os trejeitos de Emma Watson como Hermione são completamente absorvidos por Helena, dando a cena um tom equilibrado entre tensão e humor sagaz.
      Interessante perceber como revisitamos todo o mundo mágico nessa despedida, lugares como o Ministério da Magia, a Toca, Grimmauld Place, e até aqueles que não víamos desde o comecinho da franquia, como Gringotes e a Câmara Secreta. A visão quase minimalista da primeira parte é substituída agora por algo realmente épico, planos mais abertos do que nunca que vão se focando nos pólos da batalha final travada, nada mais nada menos do que na própria Hogwarts.
      Apesar dos erros de continuidade e alguns momentos fora de tom, a entrada de Harry na escola é bela como a primeira vez que pisara o chão do lugar, momento de magia relembrado ao fundo com a trilha original de John Williams que, como toda obra do compositor, já se tornara icônica, clássica, levando lágrimas aos olhos dos fãs que cresceram embalados por ela. A admiração dos alunos por Harry e visível nos olhos de cada um, deixando ainda mais bela e, por que não, emocionante, a cena de reencontro que marca o início do fim da franquia.
      A fotografia de Hogwarts muda tão facilmente como o teto do Salão Principal, a medida do tom narrativo, que vai do frio gélido e escuro, ao quente bem claro nas partes que assim cabem tal utilização. O diretor de fotografia, Eduardo Serra, novato na série, absorve bem as lições de seus anteriores e trás uma boa compilação de paletas de cores e transmite bem o clima do filme, que assim como sua passagem no livro, tende a ser uma montanha-russa instável narrativamente.
      Entre erros e acertos, a batalha tende a ser melhor quando levada a sério por ela mesma, repetindo alguns erros da parte anterior de tentar trazer leveza por vezes, com um humor demasiadamente inadequado por quebrar o ritmo na hora errada, que apesar disso funciona em outras pela perspicácia da escrita. A aproximação entre Harry e Voldemort dá ainda mais o clima crescente de perigo, sendo a divisão de seu clímax de mais de uma hora e meia, bem definida pelas pausas e a dramaticidade envolvida.
      Por sinal, se tal instabilidade narrativa na batalha se torna positivo, na hora do drama de verdade acaba sendo uma cilada. Por ser um filme que lida com muitas mortes, é complicado saber encontrar o tom dramático certo para cada uma, sendo a escolha de Yates então deixar um tom de luto geral em todos mas que ainda assim parece não respeitar a seriedade do que está sendo tratado, puxando um pouco mais o filme para o lado infantil e aventuresco em certos momentos pela falta de credibilidade.
      Ao lado de gigantes, aranhas enormes, soldados de pedra e Dementadores, o tom épico e mágico está bem estabelecido e com uma identidade própria apesar das semelhanças com outras franquias que lidam com magia. Mesmo assim, os diálogos e os momentos menos explosivos são o que mais chamam atenção, o que mais emociona o espectador. A complexidade como são tratados certos personagens chaves no filme, dando adeus a muitos, é o que mais toca o público, e Yates e sua equipe sabe disso, aproveitando não de forma excelente como poderia, mas muito bem as oportunidades que tem de mostrar um lado novo da história que tem em mãos.
      Se existe algum personagem que merece de um tratamento especial nessa análise, mais do que os outros, este é obrigatoriamente Severo Snape. Tratado de forma complexa mesmo desde o início da série, apontado como suposto vilão quando apenas queria defender Harry, Snape sempre evitou mostrar seu melhor lado, justamente pela vida triste e melancólica que teve. Suas cores sempre sóbrias, preto, indicava o luto por ter perdido a única pessoa que amara em toda sua vida em uma decepção que deixou marcas profundas em sua alma, preferiu o preto de resguardo, o preto que se tornou sua marca.
      A atuação de Alan Rickman para o personagem sempre foi destoante nos primeiros filmes, sempre superior ao clima infantil, sempre profundo, mesmo sem precisar ser expositivo. Sua imensa admiração por Harry acabou sendo o motivo de tratar tão mal o protagonista, a lembrança da mãe do garoto em seus olhos o desequilibrava, Lilian, o amor de sua vida, que perdera, por culpa exclusiva do sentimento bom que virou ódio. Snape então preferiu se desligar de seus sentimentos o máximo possível, artifício que se tornou cada vez mais difícil nos últimos filmes por tudo que ali teria que lidar. Seu olhar cada vez mais transparente, cada vez mais melancólico. Sem querer, Rickman protagonizou a cena mais bonita de toda franquia Harry Potter, se tornando o personagem mais complexo e real de toda a série.
      Junto com Rickman, Ralph Fiennes consegue uma atuação extremamente expressiva, mesmo sem sobrancelhas e nariz, passar toda a decadência de seu personagem que no fundo, tem sua natureza explicada pela inabilidade de amar. “Não tenha pena dos mortos, Harry, tenha pena dos vivos, principalmente aqueles que não podem amar” diz Dumbledore em referencia a Tom Riddle, o garoto que se tornou monstro, o pólo oposto de Harry.
      Respondo agora a pergunta que levantei no início do texto. “Quem é Harry Potter?”. No fim, Harry não se trata de um bruxo, ele é um ser humano, com todas as complexidades e anseios de um, só que exponenciais em relação ao normal, não pelos poderes, mas por sua história. Perdendo os pais logo cedo, vivendo com pessoas da pior categoria, Harry cresceu sem referenciais, dependendo apenas de sua imaginação e alta sensibilidade pra saber que algo aconteceria em sua vida, o momento chave dela. “Você é um bruxo, Harry” diz o ingênuo Rubeo Hagrid sem saber que acabara de mudar pra sempre a vida do garoto.
      E foram nesses sete anos que Harry, garoto cheio de amor mas sem ninguém para amar, passou a criar laços fortes, quase mágicos por assim dizer. Essa é a raiz de tanta admiração, de tanta identificação pela parte de um público que aprendeu a arte da sensibilidade com esses livros, com essa série. Esse é o relato de um crítico, de um fã, de um ser humano, que como tantos outros, aprendeu o caminho da plataforma 9 e meio e seguiu para Hogwarts, não pra aprender feitiços ou poções, mas para aprender a amar da forma mais pura e interminável.

Nota: Indeterminada.
      

segunda-feira, abril 25, 2011

A Minha Versão do Amor - Por Klaus Hasten.



      A comédia no cinema sempre foi algo extremamente subjetivo, justamente por ser algo que difere entre público e repertório pessoal. Um subgênero que vem atraindo cada vez mais as platéias nos últimos anos é a “tragicomédia”, uma  linha de filmes que segue uma visão peculiar do drama, o colocando sob um refletor cômico, sem perder a profundidade.
     “Minha Versão do Amor” se encaixa bem nesse ponto de vista. O filme mostra a vida de Barney, um homem decadente e frustrado, perdido entre os erros do passado, aqui, revelados em grandes flashbacks. Na verdade, a linha do presente, intercalada com os flashbacks, serve apenas como fio condutor, com objetivo de fazer paralelos. A medida em que a trama avança, a duração das cenas no presente vão diminuindo, suas lembranças vão o consumindo ao ponto do único mecanismo de defesa de seu organismo seja esquecer.
      Paul Giamatti foi a escolha mais óbvia para viver o personagem central. Acostumado a viver diversas vezes um arquétipo de homem derrotado, mas ao mesmo tempo com um timing de comédia bem elaborado, Giamatti nos entrega um personagem tridimensional, indo (um pouco) alem daquilo que já havia feito em “Sideways” e “Anti-Herói Americano”. Sua atuação vai sendo testada ao decorrer do longa, que facilita com diálogos bem construídos, mas apresenta uma responsabilidade imensa ao ator, que consegue se sair muito bem.
      A direção de Richard J. Lewis surpreende, justamente por ser seu primeiro longa para o cinema. Vindo de diversas participações em séries de TV, Lewis entra em total sintonia com a história apresentada, criando uma harmonia pontual com os atores em cena. A valorização de planos mais extensos, deixando fluir as atuações e explorando bem os elementos em cena, ajudam a transbordar a delicadeza necessária para contar a história
      A “versão” de Barney, algo bem explícito no livro original e mantido ao máximo possível no roteiro adaptado de Michael Konyves (também inexperiente na área cinematográfica), é de fato o ponto chave do entendimento da história. A decadência desse homem é mostrada como um produto da sociedade que faz de tudo para colocá-lo para baixo, seja com os relacionamentos superficiais que a modernidade apresenta ou sua própria frustração profissional. Aos poucos, essa visão é desmistificada com a ajuda da própria narrativa e vai se provando que o maior inimigo de Barney é ele mesmo e sua própria obsessão, nada para ele é o suficiente.
      A adição ao elenco de Rosamund Pike e Dustin Hoffman são essenciais para a manutenção da trama em seus 132 minutos. Uma consegue dar uma leveza bela, sem se tornar frágil, enquanto o outro, usado como alivio cômico, por mais que tenha seus momentos exagerados e fora de tom (algo similar a sua participação em “Entrando numa Fria maior ainda”), consegue entrar no ritmo em tempo.
      O desgaste da trama é inevitável e, até certo ponto, proposital. Uma escolha perigosa que perde a atenção dos espectadores mas ao mesmo tempo concede a oportunidade de compreender um pouco mais o drama de seu protagonista. Ao fim da sessão, a versão de Barney vai se dissipando, permitindo com que o público crie sua própria versão de uma história ao mesmo tempo universal e íntima.

Nota: 3 Estrelas

quinta-feira, abril 14, 2011

Sucker Punch - Por Klaus Hasten.



      Se a década de 90 foi conhecida pela reinvenção de idéias da cultura setentista, liderados por Quentin Tarantino e suas referencias a cultura pop, podemos considerar o amanhecer da década passada, início de um novo século, por algo extremamente parecido. A reinvenção agora é diária, as referencias são feitas a filmes de ontem, não a décadas de antecedência. Tudo é mais veloz, o que por um lado afeta na criação, trazendo obras cada vez mais repetitivas, o que  destaca cineastas criativos como Zack Snyder.
      Com um olhar inegavelmente diferenciado, o que pode-se observar em suas adaptações de “300” e “Watchmen”, Snyder nos trás agora uma obra original, de história e roteiro de sua autoria, “Sucker Punch”. A história da garota internada em um sanatório pelo padrasto, afim de lobotomizá-la para garantir a herança da falecida esposa trás conceitos interessantes, e por que não, inovadores em relação ao desenvolvimento psicológico dos personagens.
      Abrindo as cortinas do mundo real, cuja personagem Baby Doll (Emily Browning) é inserida, Snyder nos brinda com uma brilhante abertura, focando nos diversos aspectos pessoais e externos que envolvem nossa protagonista. O cuidado e sutileza da cena emociona ao indicar o abuso do padrasto em relação a irmã de Baby Doll, são cortes poéticos envolvendo o botão que roda no assoalho, uma arma rapidamente retirada da gaveta e o estrondo de um tiro acidental, o gatilho para o próprio desenvolvimento da trama.
      Ao nos contextualizar com essa breve abertura, a trama tende a cair em uma qualidade descendente, um gráfico que indica um cuidado visual superior a proposta bela e profunda apresentada em seu início. Somos então apresentados ao mundo do manicômio, velado por outro jogo de sutilezas (desta vez, não tão competente) que envolve a analogia a um bordel, comandado pelos enfermeiros do estabelecimento, que se consideram donos do local.
     Demonstrando ser uma personagem extremamente pró-ativa, em contraste com seu rosto passivo e atormentado, Baby Doll busca em suas colegas e em sua própria imaginação fértil, a libertação daquele mundo que não é dela, é então que surge a terceira inclusão fantasiosa da história, e a mais marcante. Agora, inclusa em um mundo que Doll PODE chamar de seu, vemos a personagem em diversos conflitos criados pela sua própria mente em busca dos cinco objetos que a tirariam de seu cárcere.
      É neste momento que o toque do diretor fica cada vez mais perceptível, inclusive sua empolgação a utilizar diferentes formas de direção metalingüística. Percorrendo diversos mundos e gêneros fílmicos, que incluem a câmera rápida e nervosa dos filmes de guerra, aos planos abertos dos épicos de magia, Snyder mostra que fez o dever de casa e tem agora a oportunidade de por em prática seu conhecimento teórico. O que primeiramente parece extremamente criativo (principalmente com o efeito da dança que emerge o espectador nesse mundo) se mostra um pouco ardiloso ao se tornar mecânico com o tempo, executado de forma exagerada pelo diretor que transpira a cartase que entrou.
      Algo similar foi o que Tarantino fez em “Kill Bill”, porém com uma proposta muita mais consciente e orgânica. Com uma trilha fantástica e uma direção de arte cuidadosa, “Sucker Punch” peca, mas peca pouco. A saída inteligente do próprio labirinto criado por Zack Snyder em sua trama, repito, descendente, poderia ter sido melhor executada, senão fosse o final artificial e forçado que beira ao didatismo.
Nota: 3 Estrelas

Cópia Fiel - Por Klaus Hasten.



A produtora MK2, conhecida na França pela produção e distribuição de produtos cinematográficos de grande qualidade, foi responsável por um dos maiores sucessos no pais no ano de 2010. “Copia Fiel”, dirigido e escrito pelo iraniano Abbas Kiarostami, foi responsável por ter feito um certo reboliço na última edição do Festival de Cannes, entregando para sua protagonista representada por Juliette Binoche o prêmio de Melhor Atriz.
      Produzido por franceses, dirigido por um iraniano, rodado na Toscana, “Copia Fiel” trás na força de sua história um ar cosmopolita, onde o dialogo que move a trama poderia ter sido travado em qualquer lugar do planeta. Juliette Binoche contracena com William Shimell, o escritor James Miller, que, diferente da primeira, tem sim um nome explicito na película. Ela então é apenas chamada por pronomes e posições sociais, como “mãe” e “esposa”, algo que, propositalmente, interfere em sua individualidade.
      O dialogo entre os dois se inicia a partir de uma discussão metalingüística, que trata da originalidade da arte em si. Kiarostomi aqui indica sua consciência em relação ao perigo de uma trama que se debruça em pequenos clichês, mas ao mesmo tempo se justifica pelas próprias falas do escritor, que estende a bandeira de que “toda a reprodução é original”. A partir desse ponto, em uma pequena viagem que representa um próprio aprofundamento no íntimo do casal, que a discussão praticamente ininterrupta vai desenvolvendo um caráter mais pessoal.
      Utilizando-se de uma fotografia mais fria, um contraponto aos tons quentes e claros em outros longas rodados na Toscana, Abbas Kiarostomi transforma o local no próprio universo da dupla. O reflexo no vidro do carro, em um belíssimo plano-sequência, identifica a força dos dois materializada nos prédios que vão passando, um de cada vez sobrepondo o outro de acordo com o tom da conversa.
      A trama vai criando uma densidade cada vez maior. Se antes acreditávamos que Miller, britânico, apenas era fluente em sua língua, mais tarde percebemos que apenas a usa por opção. A necessidade do personagem de impor sua vontade, de estabelecer suas regras é possível pela própria passividade de sua parceira, que inicia a trama de uma forma desajeitada e pouco confiante.
      Presa em uma janela com vista para um passado bonito e inalcançável e ao mesmo tempo flertando com um futuro sombrio e apático, Binoche se sente acossada pelas relações que estabeleceu com o marido, filho e o próprio mundo. Ao perceber a força oculta dentro de si, começa a virar o jogo, forçando James Miller a usar da língua francesa, a sua língua, aquela e somente aquela que julga capaz de transmitir a profundidade de seus anseios.
      Com um cuidado cirúrgico e delicado com seus cenários, a essência de “Copia Fiel” fica cada vez mais palpável ao espectador. Se é a decadência de um relacionamento que nos é revelado aos poucos, temos como contraponto a própria esperança, e por que não até certo ponto ingenuidade, da protagonista em relação ao casamento. Se o relacionamento deles é ou não um “copia” de diversos outros romances no cinema e na vida real, não importa, o que conta aqui é a forma original de se contar uma história de dois sinos que por mais que tendam a tocar em sincronia, sempre vão ter dificuldade de encontrar um tom em comum.

Nota: 4 Estrelas

domingo, abril 10, 2011

Na Teia de Ananse (Peça) - Por Klaus Hasten.

      Apostando em um formato pouco convencional e inortodoxo de monólogo, o diretor Rafael Moraes trás para o público teatral baiano a peça “Na Teia de Ananse”. “Quem é Ananse?” Ananse é o fio condutor das belas histórias africanas tratadas com profundidade pelo diretor e sua atriz Tânia Soares.
     O roteiro bem escrito pelo próprio diretor, com suas histórias bem escolhidas e denso pela própria natureza intrínseca a elas, é muito bem escrito, mas não teria a beleza que tem se não tivesse sido interpretado por Tânia Soares. A atriz entrega ao público uma atuação bonita pela sua simplicidade e harmonia, porém não menos profunda, atingindo o visceral.
      Apoiado por um jogo de iluminações inspirado, que exterioriza o intimo dos personagens interpretados por Tânia, as mudanças entre tantas pessoas dentro da atriz é de fato o que mais impressiona, atingindo um nível bi, tri, tetrapolar. São pequenas mudanças sutis nas feições e voz da atriz, o que evita a “caricatura” demasiada, sendo assim só em momentos que realmente peçam tais artifícios, onde a comédia atinge seu mais alto nível.
      A trilha sonora feita cuidadosamente por Amadeu Alves se incorpora com fluidez e naturalidade na alma da peça, deixando-a com um bom fechamento entre seus elementos. Assim como Ananse, a peça de Rafael Moraes e Tânia Soares cumpre seu papel, com toda sua beleza e encanto, espalha sabedoria e conhecimento pela terra, começando por Salvador. Essa turma vai longe.
      A peça fica de sexta a domingo, até 01/05 no Espaço Cultural Barroquinha.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Além da Vida - Por Klaus Hasten.

     




      O tema morte e suas especulações sobre o que acontece depois dela é algo recorrente nos cinemas desde sempre. “Alem da Vida”, dirigido por Clint Eastwood a partir do roteiro de Peter Morgan, é um exemplo de como encontrar o tom certo em um sub-gênero desgastado do drama, sem didatismo, o que tem se mostrado mais difícil nos últimos tempos em que o cinema tem se tornado uma ferramenta cada vez mais política.
      O que pode parecer uma história batida sobre espiritismo, se mostra algo totalmente diferente na visão de Eastwood. As três tramas principais que, invariavelmente, tendem a se encontrar, tratam de fatores ligados a espíritos, mas no fundo o tema principal aqui é a morte e a forma como as pessoas lidam com esse acontecimento.
      Seguindo uma ordem intercalada e metódica que acaba não agradando por engessar a trama de forma mecânica, são contadas as histórias da francesa Marie Lelay (Cecile de France), o paranormal George e o garoto britânico Marcus. A primeira, no caso a que introduz o filme, é uma história promissora da jornalista que apos experimentar a morte decide buscar informações para escrever um livro. Enquanto isso, nos Estados Unidos, George foge ao máximo da sua “maldição” de ter contato com os mortos, o impossibilitando de viver bem como vivo. O caso de Marcus, o mais bonito e tocante, é a história de um garoto que perde seu irmão gêmeo e tem dificuldade de viver individualmente no mundo.
      As histórias coexistem bem entre si, mas sua proposta de equilíbrio entre as três é quebrada com o obvio desnível de interesse que ocorre. Enquanto a primeira começa com uma cena de tsunami, com proporções gigantescas e excesso do uso de computação gráfica (um elemento fora de tom no contexto do filme) ela vai se retraindo pra algo mais intimo, mas que ao mesmo tempo que o faz, perde força. A segunda é a mais equilibrada, a única que funcionaria por si só, com Matt Damon interpretando um homem com sérios conflitos internos, bem exteriorizados nas expressões raras de “machão” impressas em Damon, algo que com certeza remete as próprias antigas atuações do diretor Eastwood.
      Já a história de Marcus, começa de forma muito organizada, bem apresentada, com os elementos dispostos com fluidez para os acontecimentos que se sucederiam. A atuação introspectiva do garoto Frank McLaren preocupa no começo, com suas expressões vagas e distantes, o que com o tempo vai se mostrando algo importante para a construção do momento que o comprova como excelente ator dramático.
      Cores frias e escuras predominam os ambientes e os figurinos, principalmente dos personagens cujo “toque” de morte mudou suas vidas. Dos três, o personagem com maior predominância da escuridão, seja interno ou externamente é o George, que em contraponto com as cores de sua cidade, não consegue se sentir pertencente a um lugar. Seu problema não é de mudança de postura, pois este o tenta a todo momento, mas é algo circunstancial. Na primeira oportunidade de melhoria de vida, de “coloração”, com os ruivos cabelos da competente Bryce Dallas Howard (marcante participação) seu passado e sua maldição o trás de volta para o trágico fato de que seu destino é ser só.
      Com um estilo que foge a direção peculiar de Eastwood, “Alem da vida” trás  um quê de Inarritu (Babel, Biutiful) misturado com Krzysztof Kieslowski (“Trilogia das Cores”, principalmente nas sutilezas do núcleo Frances). Um filme que não exagera em questões políticas e religiosas, mas as toca, até com certas criticas pontuais. No fim, o que o difere de tantos outros filmes que compartilham o assunto é a abordagem: Aqui não são os mortos, espíritos e fantasmas que precisam “ir para a luz”, mas são os próprios vivos que devem aprender a lidar com a dor da perda e seguir em frente.

Nota: 3 Estrelas

     
     

Tetro - Por Klaus Hasten.




      Se tem um diretor de cinema que foi tão ovacionado quanto injustiçado posteriormente, foi Francis Ford Coppola. O “Poderoso Chefão” dos cineastas de Hollywood que foi aclamado nos anos 70 com seus blockbusters e suas iniciativas que deram mais poder aos diretores, passou por maus bocados em suas tentativas de ingressar em uma forma mais artística de fazer cinema nos anos 90. “Tetro” (2010) é a obra definitiva que coloca Coppola como o “homem que anda nos dois mundos”, seja o dos sucessos mais rentáveis ou das obras intimistas que ele sempre quis fazer.
      “Não me importo mais com você”, diz Coppola com a voz do personagem Tetro (Vincent Gallo), para a critica teatral vivida por Carmem Maura, uma representante de todos aqueles críticos que o menosprezaram em suas tentativas de vôos mais profundos.
      A trama gira em torno de Benjamin, um garoto de 17 anos perdido no mundo, com referencias familiares precárias. O pai, um famoso maestro, não demonstra se importar muito com seus dois filhos, enquanto seu irmão, Tetro, fugiu para Argentina em busca de inspiração para escrever suas histórias. Com um jeito de “escoteiro”, passos firmes, olhar limitado, Bennie vai ao encontro do seu irmão como uma forma de reconstruir sua família, e principalmente, seu próprio referencial como ser humano.
      Ao chegar no bairro de La Boca, Benjamin se depara com uma sombra do que outrora fora seu irmão. Por um lado, adorado pelos vizinhos e pela esposa, uma espécie de boêmio que vive de iluminação, literalmente, nas peças teatrais dos outros. Por outro, Tetro é autodestrutivo e narcisista, um mal-exemplo claro para Bennie, que cada vez mais vai sendo absorvido pela vida intensa do seu irmão, cuja energia é diretamente proveniente da sua imagem paterna.
      O desenvolvimento dos personagens principais aqui é fantástico, sem pressa e sem desperdícios nesta etapa, com cenas pontuais e bem aproveitadas. A película preta e branca é não só a visão de Tetro do presente, mas do próprio Coppola, que só permite a aparição de cores em flashbacks e devaneios. A linguagem teatral aqui também é muito forte, seja nos movimentos ou na própria forma de apresentação dos personagens, não poupando exageros até para os mais secundários, o que acaba sendo uma armadilha ao desgastar a trama principal com histórias que não seriam desenvolvidas posteriormente.
      A luz em “Tetro” não é uma composição, mas o foco principal onde todos giram em torno como insetos em uma lâmpada. Esta inclusive é a metáfora chave para o entendimento pleno do filme, onde a luz é o estopim para uma série de epifanias e memórias, instigando a sucessão de acontecimentos. “Não olhe para a luz” diz Tetro ao seu irmão, percebendo o dano que tudo aquilo causara em suas vidas.
      Com a evolução da dinâmica dos personagens, é possível notar que o tom maniqueísta em relação ao pai de Tetro e ao próprio são quebrados. A imagem do “grande” maestro Tetrocini é  propositalmente distorcida pelo filho em prol da inspiração, do “artista”, enquanto o próprio se perde em culpa e na necessidade de viver uma vida épica e cheia de significados, por piores que sejam. Há então uma mudança ao decorrer da trama, de consciência em Tetro, enquanto seu irmão, intoxicado pelo seu ar boêmio e intenso, caminha em passos largos para se tornar o próprio.
“Tetro” tange a grandiosidade a todo momento, criando grandes expectativas em relação a suas tramas, ora surpreendendo, ora decepcionando. Coppola nos trás um filme de arte “clean”, com uma preparação de elenco excelente, personagens densos e profundos, mas que cansa em certos pontos com cenas desnecessárias ou reafirmação do que já fora expresso, tornando seus 127 minutos mais do que um exagero. Para Francis Ford Coppola não importa, pois apos décadas ele finalmente está podendo ser aquilo que sempre sonhou como profissional: Livre.

Nota: 4 Estrelas

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Besouro Verde - Por Klaus Hasten.



      Algumas histórias são tão belas que reverberam pela eternidade, instigando os roteiristas e diretores a atualizarem tais obras, como uma forma de refrescar e homenagear ao mesmo tempo. Em alguns (poucos) casos, a arte do “remake” chega a superar seu original, dependendo do cuidado e preocupação que se tenha com a história, algo que Tim Burton alcançou na sua belíssima versão de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005).

      Não é preciso ter conhecimento de que Seth Rogen e Evan Goldberg são os roteiristas responsáveis por “Besouro Verde” (2011) para notar as semelhanças com outras obras da dupla conhecida por seus projetos produzidos por Judd Apatow (Ligeiramente Grávidos, Superbad...). Aliados a direção do francês Michel Gondry (aclamado por “Brilho Eterno de uma Mente sem lembranças”) o resultado é um filme que se mantém apoiado nas séries de rádio e TV do mesmo personagem, sendo por si só um filme fraco.
      A história de origem do “super”-herói que completa quase oitenta anos de existência é a base para trama. O herdeiro milionário, Britt Reid (Seth Rogen, o próprio) perde o pai e se sente compelido a fazer justiça com as próprias mãos. E assim nasce o “Besouro Verde”, que junto ao seu parceiro Kato (Jay Chou), invade as ruas de Los Angeles com muito estilo.
      E de fato não falta estilo no longa, com um visual elegante e cores bem aproveitadas, o problema maior do filme é o seu próprio conteúdo, que acaba se perdendo entre tantas transições de gêneros. Ao começar pela forma pobre e superficial de apresentação dos personagens, com destaque para as diversas fases do amadurecimento de Britt Reid que, por pressa ou descaso, acabam sendo mal desenvolvidas. No fim, o que importa aqui é ação, velocidade, e aquilo que vem se tornando o câncer do cinema atual: O uso da câmera exclusivamente para o destaque do efeito 3D.
      Christopher Waltz, ganhador do Oscar de Melhor ator coadjuvante em 2010, é Chudnofsky, um vilão com crise de identidade, e, por não entender seu próprio papel de vilão, passa o filme discutindo sua metodologia criminal em cenas fantásticas, em destaque para o seu dialogo inicial com James Franco.É um momento em que a industria do cinema pára e analisa o que tem feito com seus vilões, que cada vez mais estão se tornando fracos e apagados. Pura metalinguagem!
      Infelizmente, ao analisar “Besouro Verde”, a cada ponto positivo que encontramos, dois negativos se mostram. Seth Rogen é, atualmente, um dos atores de comédia mais inspirados, mas a cada fala e expressão é possível perceber que o uniforme preto e verde não lhe cabe, o tornando uma espécie de “protagonista-alívio-cômico”, sem a força suficiente para manter o fio da trama. “Besouro Verde” é o caso típico de um filme que não sabe se deve ser levado a sério ou não, uma indecisão que só faz afastar mais o público cinematográfico que vem se tornado cada vez mais crítico.


Nota: 2 Estrelas

domingo, fevereiro 20, 2011

127 Horas - Por Klaus Hasten.


 
      O homem é o único ser vivo que tem consciência de que, em sua estrada, tudo leva para o único e irremediável fim: A morte. Mesmo assim luta, chora, ri, se diverte e vive em busca daquela peça fundamental que completa de vez a gama dos instintos humanos fundamentais: A sobrevivência. O diretor e roteirista Danny Boyle usa a história de Aron Ralston como uma metonímia dessa idéia universal, dando ao filme quase monólogo essa expressão abrangente.
      O que torna “127 Horas” um filme fora dos padrões do “survival movie” comum, é a forma como a harmonia do roteiro e direção brinca com o espectador, o levando nas horas certas a sentir o que lhe é servido. Se temos uma abertura positivista, com excesso de cortes e recheado de uma edição experimental com tom de documentário esportista “maneiro”, é porque Danny Boyle sabe que tudo isso só aumentaria o peso da queda do fone de ouvido que tirava Ralston da realidade do mundo. Uma queda tão forte quanto a da pedra que o prenderia em um dos cantos mais obscuros do mundo, é então que vemos que Boyle não está ali pra brincadeira.
      Sempre fazendo referencia ao ser humano de uma forma genérica, temos aqui um protagonista que ao analisar o conteúdo do que carrega, descobre que está munido apenas de supérfluos. Ao passar das horas, Aron vai criando consciência de seu pequeno tamanho relativo ao mundo, auxiliado pela câmera alta que exerce um peso ainda maior ao tom sufocante que o longa alcança, aprofundando ainda mais a inesgotável discussão de Homem X Natureza.
      James Franco engrandece o filme com sua atuação eloqüente, transmitindo com toda sua expressividade as mudanças de postura e ao mesmo tempo a resistência quase sobre-humana do personagem. Mesmo com algumas falas desnecessárias e alguns momentos que quebram o tom proposto pelo filme (no caso, questão de roteiro), Franco se mostra capaz de encarar o desafio que de longe é um dos maiores para qualquer ator: o de ter a responsabilidade de atuar sozinho.
      A medida que a natureza começa a incorporar a presença de Aron em seu ambiente, com a morte chegando cada vez mais perto, seja o olhando de cima em seu vôo matinal, ou subindo pelo seu corpo em forma de grandes formigas, o longa vai adentrando em outra discussão sobre a psicologia humana: A fragilidade do Homem e sua relação com a Morte. A força desses momentos são o que mais tem de riqueza no longa. “Morrer é como ver uma festa preso do lado de fora” insinua a câmera-poética de Boyle com passagens oníricas memoráveis.
      “127 Horas” é a arte crua, exposta em uma bandeja de pedra artesanal, uma reflexão sobre o papel do ser humano no mundo pela sua própria visão. Cheio de comédia involuntária e humor negro, é um filme que pula entre o positivo e o negativo a cada minuto, deixando apenas claro no desfecho que é uma simples e bela celebração a vida.

Nota: 5 ESTRELAS!
     

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Bravura Indomita - Por Klaus Hasten.


       
      Difícil encontrar alguém que se intitule apaixonado por cinema, que não tenha uma queda pelos filmes Westerns. A partir da segunda metade do século XX, o mundo se deslumbrou com personagens marcantes interpretados por Clint Eastwood, Henry Fonda e John Wayne, este último que estrelou o original “Bravura Indômita” (1969), cuja história interessou e muito os excêntricos irmãos Cohen.
      Joel e Ethan Cohen são pais do vencedor do Oscar de melhor filme em 2008, “Onde os Fracos não tem Vez”, filme que flerta com o Western com seu estilo e suas abordagens, mas só em “Bravura Indômita” (2010) que os irmãos entram de cabeça no mundo do velho oeste.
      O homem do velho oeste, o cowboy, é o elo perdido entre o homem das cavernas, irracional e o homem moderno, artificial e metódico. O personagem de Jeff Bridges, Rooster Cogburn, é exatamente a representação desse individuo que age por instinto, acredita não se preocupar com os outros e só descobre seus verdadeiros sentimentos na hora que mais precisa. Uma pessoa que precisa olhar no cano do revolver pra saber se é ou não, um homem honrado, de bravura indômita.
      O cenário aqui é uma cidade do Arkansas. A idéia cuspida e escarrada da cidade Western, com saloon aberto todo o tempo, a funerária com caixões expostos no meio da rua e a delegacia para mostrar que há lei no local, mesmo que ela seja tão subjetiva e impotente quanto nos dias de hoje. “Quem é o xerife?”.
      Uma garota de 14 anos (Halee Steinfeld), que perde o pai assassinado por um bandido, busca vingança, encontrando em Cogburn, uma espécie de caçador de recompensas, a possibilidade de fazer justiça. Apos cruzar o rio que a separa do seu passado, Mattie percebe que fez uma escolha sem volta, e de uma forma ou outra, seria o marco que a tiraria da vida de garota e a transformaria em mulher, mesmo de forma tão inortodoxa.
      Os planos afastados dos Cohen dão uma dimensão ainda mais real a história, dando ao espectador uma visão privilegiada, mas que peca ao também aumentar a distancia, perdendo a imersão necessária em certos momentos. A atuação de Jeff Bridges, excelente como sempre, é forte e marcante, porém mostra que o “Dude” não diversifica muito o estilo de atuação em seus papéis, o transformando em um “ator de uma face”.
      A Jóia da atuação aqui é a estreante Halee Steinfeld, que se mostra capaz de domar diálogos longos com uma excelente dicção e firmeza na voz, tudo necessário para interpretar a garota-mulher que mesmo consciente dos seus atos, não sabe o que a espera ao mexer nas partes mais íntimas dos homens: seus egos. Outra boa interpretação é a de Matt Damon, que vive o estereotipo atual do cowboy, como um “Texas Ranger” que acredita no maniqueísmo, o “mocinho” que por não saber se encaixar em um mundo em constantes mudanças, acaba se dando mal diversas vezes, sendo rebaixado até para alivio cômico.
     Os Irmãos Cohen fizeram muito mais pela história do que dar um som espetacular e uma imagem de primeira, eles deixaram suas impressões digitais por toda película. São as piadinhas racistas que fazem rir o espectador despercebido, a capacidade de transição de clima em uma mesma cena (principalmente ao encaixar a violência no contexto) e a dinâmica que chega a dar uma leveza até um pouco incompatível ao tom da história.
      Ao assistir a “Bravura Indômita”, a palavra que mais recorre na mente de quem acompanha de forma mais analítica é “Épico”. A cada cena, a cada quadro, a cada som de tiro, é perceptível o cuidado minucioso de demonstrar carinho a história que tiveram com o filme, algo que só pessoas tão apaixonados pelo cinema sabem fazer.

Nota: 4 Estrelas

sábado, fevereiro 05, 2011

O Discurso do Rei - Por Klaus Hasten.




Se em outro filme recente, “O Cisne Negro”, a arte influencia na vida, “O Discurso do Rei”, um filme de época baseado em fatos reais, prova que a vida não só influencia a arte, mas a deixa cada vez mais palpável.
      Tom Hooper, diretor conhecido por retratar nos cinemas e na televisão histórias reais, mais especificamente envolvendo a História britânica, nos trás um filme ímpar em sua filmografia, que tem o um “quê” de refrescante em um estilo perigoso de fazer filmes.
      Trazendo Colin Firth como o Rei George VI, Hooper coloca em cena a época das Grandes Guerras na Europa, uma época onde o poder da palavra era decisivo, principalmente vinda dos grandes lideres. Invés dos habituais filmes históricos quase documentais, com fatos seguindo mais fatos, sem alma, secos, “O Discurso do Rei” trás uma história mais humanas e pessoais, com um personagem tão interessante que quase parece inventado.
      Mas como, um filme que se passa na Inglaterra dos anos 30, focando a família real, pode ser tão interessante? A resposta está no FOCO! O roteiro aqui não se limita ao falar sobre uma guerra ou sobre um evento histórico, o filme se trata de um ser humano, um ser humano com problemas psicológicos que são exteriorizados fisicamente, com a gagueira do Rei George VI, que se trás propositais risos em diversos momentos da trama, é uma forma de surpreender o espectador mais tarde com a profundidade que esta deficiência exerce na narrativa.
      Com a ajuda de sua esposa (a excelente Helena Bonham Carter) George, ou “Bertie”, é obrigado a passar pela inortodoxa terapia de fala  de Lionel Logue (Geoffrey Rush), um ator fracassado que ganha a vida ajudando pessoas com seus problemas de comunicação. É ao entrar na sala de Logue que George, o duque e futuro rei, se torna “Bertie”, o garoto cuja infância mal vivida e traumatizante na monarquia britânica tirou seu poder de fala, sua habilidade de se relacionar e sua própria auto-estima.
      O filme patina com uma fluidez incrível em seus 118 minutos. A direção de Hooper aqui é leve e tranqüila, mas sem cair na inocência e no puro ato de contar uma história. A câmera consegue ser companheira dos personagens, aproximando o espectador da história, auxiliando no excelente timing de comédia e mostrando uma visão peculiar e inexplorada da Realeza.
      Colin Firth se adapta perfeitamente ao papel do Rei Gago, com os movimentos certos e equilibrados para convencer e ao mesmo tempo não exagerar. Mesmo com tanta habilidade de atuação de Firth, o destaque nessa área aqui é de Geoffrey Rush, com um personagem extremamente interessante e excêntrico, interpretado com imensa naturalidade pelo ator.
      Indicado a doze Oscars no ano de 2011, “O Discurso do Rei” prova que a arte de fazer filmes não está tão desgastada como parecia e que é possível se surpreender com um filme de roupagem antiga e cansativa. Sem grandes pretensões e com uma forma acessível de dirigir, Tom Hooper nos brinda com um filme tocante e leve, o equilíbrio estável entre a beleza da sétima arte e o bom entretenimento.

4 Estrelas

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Cisne Negro – Por Klaus Hasten.



      “Cisne Negro”, novo filme de Darren Aronofsky, fala sobre a preparação de uma bailarina para fazer o papel principal na famosa dança do “Lago dos Cisnes”. Ao assistir a película e adentrar as diversas camadas de significados da obra, o espectador percebe que não está assistindo a mais um filme, está vendo a mais pura arte, raridade nos multiplexes atuais.
      O projeto foi abraçado pela Fox Searchlight, braço da Fox que se foca na produção de belíssimos filmes independentes como “Pequena Miss Sunshine”, “Quem quer ser um milionário” e “(500) Dias com Ela”, mantém o nível da tradição da produtora de fazer bons filmes. Darren Aronofsky, após ter tido seu “O Lutador” indicado ao Oscar de Melhor Filme em 2009, chega agora com um filme mais denso e maduro, sendo indicado ao mesmo prêmio que seu ‘irmão mais velho’.
      Natalie Portman vive Nina, uma bailarina que fora criada com o intenso incentivo da mãe, uma artista fracassada que espelha sua vida na filha, e dá seu suor e sangue para atingir a perfeição. Nina enxerga aos poucos sua vida metódica ir desmoronando a medida que tem o desafio de enfrentar a árdua tarefa de representar nos palcos tanto o Cisne Branco, metáfora do lado bom e inocente existente dentro do ser humano, quanto o Cisne Negro
       O Cisne Negro, destaque e titulo da obra, é o lado inexistente nas características exteriores da personagem, um lado que vai sendo puxado pelo diretor do espetáculo vivido por Vincent Cassel, que tem com esse objetivo dar mais naturalidade a personagem do cisne. A situação fica insustentável com a chegada de Lily (Mila Kunis), a personagem sem dúvidas mais ambígua da história, que causa dúvida e insegurança na já conturbada Nina.
      Em meio a passagens oníricas e propositalmente abertas ao ponto de gerar discussões ao público sobre os aspectos psicológicos da personagem de Portman, a trama acompanha sua protagonista em literalmente todos seus 108 minutos, obrigando o espectador a sentir a história como sentiu sua “heroína”, que tem seu trágico destino já traçado desde a estonteante introdução. A direção aqui é pesada, sufocante, valorizando seus atores com excesso de closes com objetivo ainda maior de dar mais gravidade a já alucinante trama.
      A câmera persegue Nina por todos os cantos, sendo sua sombra quando está andando em direção a algo, seu reflexo quando a mesma se olha no espelho ou um olhar curioso nas seqüências longas, sem cortes excessivos, mais um atributo pra valorizar a pérola da atuação marcante de Natalie Portman. As cores frias dão ainda mais seriedade a película, deixando os poucos momentos coloridos da história naqueles que se passam no interior da personagem, que se exterioriza em mil metáforas: Quarto, camarim, maquiagem e a própria Lily, que não deixa de ser um reflexo de Nina, que não cansa de sabotar a si mesma em prol da sua arte.
      Assim como um espetáculo de Balé, “Cisne Negro” é bem dividido entre seus atos, valoriza bem seus movimentos, suas cores, e tem uma das trilhas mais harmônicas dos últimos tempos. E enfim, quando se fecham as cortinas, e as luzes vão se apagando, é possível sentir uma sensação pesada, uma dificuldade de se levantar, que só um filme tão especial quanto “Cisne Negro” causa.

5 ESTRELAS
     
     

terça-feira, janeiro 25, 2011

O Concerto - Por Klaus Hasten.


      Existem certos filmes, que por mais que os maiores especialistas ou donos de locadoras se esforcem em classificar em um gênero, não conseguiriam com sucesso. “O Concerto” é um grande exemplo de como as vezes a grandiosidade de um filme esta simplesmente atrelada a sua despretensão de querer se encaixar em algo previamente estabelecido.
      O diretor romeno Radu Mihaileanu se despe totalmente de quaisquer rótulos  ao conseguir mesclar drama e comédia com total maestria, pegando suas convergências e traçando uma história natural e harmônica. Andrei (Aleksei Gustov) é um homem frustrado por ter perdido seu trabalho como maestro na companhia Bolshoi, na Rússia, e vive o resto de seus dias medíocres sonhando a conclusão do espetáculo que nunca pode terminar.
      Destinado a varrer o chão daqueles que o substituiu, ex-alcolatra e desiludido com a vida, Andrei pega com todas as suas forças a oportunidade de uma apresentação em Paris, onde poderia de uma vez restaurar seu nome como grande maestro. O problema dessa oportunidade é justamente o pontapé que faz as engrenagens do filme rodarem: Ele não tem orquestra disponível, o que o obriga a sair pelas ruas de Moscou a procura de talentos dos cantos mais inusitados.
      O que seria a alma do filme, acaba tendo uma atenção inferior ao que merecia, e toda a beleza de terem reunidos músicos espontâneos e inesperados, com histórias diferentes e até loucas é folheado com muita rapidez, sem a calma necessária. Os 55 integrantes da orquestra são não só escolhidos na pressa (como o personagem precisa) mas suas participações são reservados a alguns poucos momentos cômicos, deixando (quase) toda a carga dramática para o próprio protagonista.
      Partindo de uma premissa simples e até um certo ponto um tanto desgastada, o diretor assume a responsabilidade de dar o seu tom a história, parecendo não se importar com as possíveis armadilhas e clichês que estariam em seu caminho. Radu Mihaileanu extrai de todo seu lado poeta a beleza que quer imprimir na película e combinando com a trilha forte e arrepiante de Tchaikovski.
      O filme se mantém com uma boa direção, um ótimo roteiro, mas o que realmente excede as expectativas são as intensas atuações, com destaque merecido para Aleksei Gustov e a francesa Melanie Laurent, interprete da personagem Anne-Marie, peça chave para o desfecho brilhante da história. Talvez tenha sido meio difícil encontrar o tom certo do filme, mas, assim como as musicas de Tchaikovski, o longa prova que as vezes a harmonia acontece por si só, basta sentir.

4 Estrelas

terça-feira, novembro 09, 2010

The Runaways – Por Klaus Hasten.

     
      1975 – A banda de rock, “The Runaways” é formada. Não, 1975 não foi só isso, foi um marco de descobertas, inseguranças e mudanças na vida das cinco integrantes que se tornaram hit entre os jovens da década de 70. Este filme trata especificamente de duas das componentes, Cherie Curie (Dakota Fanning) e Joan Jett (Kristen Stewart).
      A diretora Fiora Sigismondi pode ser novata no ramo cinematográfico, mas usa sua experiência com vídeo-clipes e  fotografia para preencher de significados todo o percurso de seu primeiro longa. São movimentos precisos e quadros extremamente cuidadosos. Aqui, a posição da câmera define os personagens e é imprescindível para o aprofundamento dos mesmo, como a cerca que vista de cima funciona como uma linha tênue entre Joan Jett no início de sua carreira e duas latas de lixo.
      Por sinal, o aprofundamento inicial dos personagens é o verdadeiro brilho do filme. Cherie Curie, comparada com Bridget Bardot e Marilyn Monroe aqui, no fundo, não passa de uma garota confusa. A fragilidade e volatilidade da personagem é medida pela câmera em grandes quadros, como a cena em que ela, em movimentos suaves e infantis, patina com os pés na parede, no centro de duas possibilidades, e a medida que seu passo diminui é possível notar a decisão eminente que tomará.
      A atuação aqui é coadjuvante, temos a instável Dakota Fanning, que se perde diversas vezes em seu primeiro papel “adulto”, não sabendo dialogar com o que se passa em cena ou com o que a câmera quer mostrar. Apesar disso, seus traços de boa atriz ainda são demonstrados em certos momentos, com seus olhares profundos e alguns diálogos bem sucedidos.
      O filme procura se centralizar mais em Cherie Curie e seus conflitos em relação ao lar e a vida incomum de rock star, algo que com o passar do tempo se mostra uma armadilha já que é notável que boa parte das outras subtramas são ofuscadas pelo “brilho” excessivo que Sigismondi joga em cima de Dakota Fanning. O que se perde nessa tendência que se inicia do meio pro final do longa é a excelente atuação de Kristen Stewart e o decréscimo de sua participação. 
      Depois de mostrar seu potencial em “Na Natureza Selvagem”, Stewart teve seu talento menosprezado na série “Crepúsculo”, onde vive a protagonista. Em “The Runaways”, Kristen vive uma verdadeira apaixonada pela vida e pelo Rock, uma personagem difícil de ser encorporada pelo seu temperamento paradoxal, mas extremamente bem conduzido por uma atuação no mínimo memorável.
      “The Runaways” começa apostando em uma abordagem mais sutil, comparado com similares como “Johnny e June” e “Coração Louco”, buscando não superestimar acontecimentos ou cansar o público por vezes insistindo na mesma tecla. A direção é precisa o suficiente para deixar os sentimentos extraídos rolarem sem precisar forçar, a imagem conseguiu vencer a tentação de usar mil palavras.
      Fiora Sigimondi consegue extrair de um roteiro mediano um filme que excede as expectativas. A escolha da diretora foi fundamental, trazendo cores e vida ao filme. No fim, “The Runaways” é uma grande homenagem ao Rock, sendo em sua essência um grande vídeo-clipe, regado a bastante suor, drogas e estrógeno.

Nota: 4 Estrelas.

sexta-feira, novembro 05, 2010

Jogos Mortais VII - Por Klaus Hasten.


Vamos combinar? Chegou um ponto na franquia de Jogos Mortais que os bons apreciadores da sétima arte só se dão o trabalho de assistir os filmes da cine-série esperando pelo final embalado por uma das trilhas mais reconhecíveis dos últimos anos.
Tudo começou com uma idéia extremamente inteligente e uma trama magistralmente trabalhada. Um homem decide testar a vontade das pessoas de viver, em jogos sádicos, porém com o único objetivo de ensiná-las a valorizar suas próprias vidas. Cada jogo simboliza nas suas próprias regras os erros cometidos pelas “vitimas”, colocando em xeque a própria integridade da nossa sociedade com criticas de uma pessoa cansada do que vê.
As coisas iam bem, até a Lions Gate perceber o quanto lucrativo os filmes do “assassino Jigsaw” estavam sendo, e, infelizmente, decidir prolongar até onde pôde. O resultado disso? Os jogos iam perdendo um pouco do seus significados, o sangue preenchia o lugar das palavras e das metáforas dos primeiros, abrindo espaço pros fãs dos filmes gores que entravam pela porta da frente enquanto os críticos mais analíticos corriam para a saída.
Nesta sétima e última (?) edição, Jigsaw (Tobin Bell) continua morto, deixando para o seu seguidor Mark Hoffman (Costas Mandylor) todo o trabalho de sua vida. Ao sobreviver do atentado de Jill Tucker, Mark monta um plano extremamente bem elaborado para conseguir alcançar sua vingança. Em paralelo, como nas 5 últimas seqüências, ocorre um jogo específico que demanda boa parte do tempo em cena, e que, inevitavelmente, será dispensável pra os eventos da septologia como um todo.
As atuações são bem desequilibradas. De um lado, temos a péssima Betsy Russel e vários, vários semi-figurantes que ficam totalmente perdidos, por outro temos o bom Costas Mandylor e o excelente Tobin Bell, que infelizmente tem nesse filme uma das suas menores participações.
A direção, que sofreu várias trocas durante a série, agora fica a cargo de Kevin Greutet, que aposta nos métodos de filmagens já peculiares a franquia, as câmeras rápidas e o velho tremelique que intensifica a agonia nas seqüências dos jogos. Mas alguns pontos interessantes nos últimos foram deixados de lado, como as criativas passagens de cena, que perderam a vida na mão de um diretor que se focou mais em buscar quadros que seriam abusivos na terceira dimensão. Tal ferramenta que inclusive se mostrou inútil a série, provando ser apenas mais uma forma de explorar dinheiro dos espectadores.
O roteiro busca boa parte do tempo trazer informações dos filmes anteriores e felizmente alcança um desfecho a altura dos melhores da série. Consegue ser tão fraco e insosso como os últimos dois porém consegue trabalhar bem com informações novas e surpresas. A mensagem, digerida pelas pessoas há 6 filmes, consegue ter novas faces, mas continua bem clara: “Valorize sua vida”.
Por fim, Jogos Mortais deixará saudade aos fãs, que religiosamente acompanham em todos os Halloweens suas seqüências, e alivio aos críticos, que com razão, acreditam no fato de ser desnecessário o prolongamento da série. O melhor é lembrar das grandes cenas, os choques, as surpresas e valorizar a série que colocou no Hall dos melhores vilões, o sombrio e sábio Jigsaw. Game Over.

3 Estrelas

quarta-feira, novembro 03, 2010

Scott Pilgrim Vs. The World - Por Klaus Hasten.


   
      Garoto de 22 anos, com estilo meio andrógeno, conhece garota dos seus sonhos e tenta conquistá-la, sem saber que por trás dela estão sete ex-namorados maléficos. Com essa premissa simples, Scott Pilgrim não faria o sucesso que teve mesmo antes de estrear, então, como explicar toda a campanha para o quase-impossível lançamento aqui no Brasil?
      Baseado na HQ de Bryan Lee O’Malley, a obra apela para o público Indie com suas incontáveis referencias a musica, filmes e vídeo-games, tendo sua própria fotografia totalmente ligada a tais mídias. O longa já começa mostrando a que veio, com uma abertura inspiradíssima e divertida, é desde esse ponto que nos sentimos dentro deste mundo onírico e ao mesmo tempo tão ligado ao nosso, o mundo da cultura pop.
      Michael Cera é Scott Pilgrim, garoto inseguro, sem auto-confiança, que busca nas pequenas coisas a felicidade. De fato, Michael Cera é mais uma vez Michael Cera, com as mesmas gags e o mesmo estilo inconfundível que o deixou notável em Superbad e Juno.Tal reconhecimento se torna uma faca de dois gumes, pois por um lado, temos um ator que se encaixa no papel, mas que acaba sendo também uma extensão dos seus trabalhos anteriores e por conseqüência de difícil separação pelos próprios olhos do público.
      A garota, no caso Ramona Flowers, é Mary Elizabeth Winstead, cuja a proposital inexpressividade deixa a personagem ainda mais profunda e interessante. Tal característica é facilmente confundida como defeito, mas a capacidade da atriz é diversas vezes explorada, com olhares demorados e a dicção perfeita da artista.
      A direção consegue dialogar perfeitamente com a mídia dos quadrinhos, ao procurar posições de câmera que se tornam verdadeiros quadros, que colados lado a lado dariam de fato em uma HQ. As cores saltam da tela em contrastes que tornam ainda mais surreais os eventos passados ao longo do filme, especialmente as batalhas, carregadas das mais puras referencias aos “fights” dos anos 80/90 dos vídeo-games.
      O diretor Edgar Wright realmente surpreende, principalmente devido ao seu passado instável que inclui o ótimo Todo Mundo quase morto e ao mesmo tempo a sofrível adaptação do Guia dos mochileiros das Galáxias. A comédia consegue ter um timing pontual, sem quebrar a rapidez natural que o filme segue, que ao mesmo tempo tem o êxito de coexistir com cenas sutis de emoção, lapidadas em chuvas de metáforas.
 A cada ex-namorado enfrentado por Scott, é perceptível que são fases que ele passa, literalmente, que vão sendo dificultadas com o seguimento do filme/jogo. A trilha sonora busca muito daqueles sonzinhos dos games mais conhecidos, e os poderes dos personagens são de fato o próprio potencial deles, principalmente de Scott, que ao ficar de frente com seus inimigos acaba descobrindo mais sobre si mesmo. 
      Tal equilíbrio consegue perdurar o filme inteiro, deixando o espectador sincronizado com o ritmo da narrativa. Talvez tal velocidade não agrade aos cinéfilos mais moderados, mas com certeza deixará todos aqueles de mente aberta desorientados ao final de uma sessão do filme mais psicodélico do ano.

Nota: 4 Estrelas
     
     


     

quinta-feira, outubro 28, 2010

Federal - Por Klaus Hasten.


É comum, em um pais tão plural como o Brasil, terem filmes tão bons coexistindo com filmes tão ruins. O mais interessante é quando observamos histórias de assuntos tão próximos e até mesmo compartilhados, com um contraste imenso em relação as suas qualidades.
Policial como deixa bem claro seu cartaz, “Federal” é o estereotipo cuspido e escarrado do gênero. Um grupo de policiais se juntam em uma equipe pra desbancar um traficante. Pronto? Essa é a sinopse? Isso, o filme apresenta uma descrição tão rasa quanto seu próprio desenvolvimento, que trata o expectador como idiota ao usar formulas clichês e desgastadas.
O filme cai em uma série de erros, que começa com o próprio diretor, Erik de Castro, que insiste em enquadramentos e movimentos de câmera que funcionam bem apenas em novelas e programas pra mídia televisiva. Além de outros probleminhas técnicos que envolvem falta de foco fora do contexto ou uma má edição, o roteiro mata qualquer possibilidade de desenvolvimento dos personagens e dos próprios atores, que se vêem reféns de falas absurdamente ridículas.
Selton Mello é o agente Dani (isso, o nome do agente é Dani), que junto ao delegado Vital (Carlos Alberto Ricceli, mas conhecido pelo seu papel na propaganda do colchão Reconflex) e mais um punhado de péssimos atores saídos diretamente de novelas, buscam derrubar o tráfico de drogas em Brasília, comandado por ‘Beque’ (Eduardo Dusek em um papel digno de vilão de Malhação).
Em meio ao submundo, vemos cada um dos personagens tentando balancear um pouco a vida como policial e como ser humano, mostrando como é difícil o equilíbrio entre os dois. Aos poucos, o diretor se  esforça em nos mostrar como é inevitável a queda do homem com distintivo para a ascensão do policial com ciência das suas obrigações. Tudo isso é embalado em cenas desnecessárias que enfatizam a incapacidade do diretor e roteirista de fazer o público se interessar no longa.
O filme surge de um roteiro que impressiona pelo fato de ter demorado quase 20 anos para ser concluído pelo cineasta Erik de Castro. Depois de anos reunindo noticias e informações em um caderninho, com intuito de ter uma maior veracidade ao construir seu filme, Erik só nos prova que sua ambição não funcionou, ao fazer um filme literalmente com um roteiro de rascunho.

2 Estrelas

segunda-feira, outubro 11, 2010

Tropa de Elite 2 - por Klaus Hasten.


       
   A franquia “Tropa de Elite”, iniciada em 2007 pelo diretor José Padilha, parece causar um frenesi tão grande nos sentimentos do espectador que parece ser impossível escrever uma análise centrada e imparcial, mas missão dada é missão cumprida, né parceiro?
  Capitão Nascimento (agora Coronel) se consagra como o anti-herói brasileiro definitivo. Um personagem passional e trágico que mantém sua sanidade com um equilíbrio perverso entre uma vida pessoal aos pedaços e um trabalho que proporciona a adrenalina necessária para saciar seu vicio.
     O segundo filme da franquia contribui para o aprofundamento do personagem interpretado pelo brilhante Wagner Moura. A trilha que lembra o estilo de Ennio Morricone contribui para o clima de “loner” que gira em torno de Nascimento, um verdadeiro herói do velho oeste que se vê perdido no meio dos diversos esquemas políticos que giram em torno dos problemas sociais do Rio de Janeiro. O inimigo, realmente, agora é outro.
    A trama é na verdade um paralelo criado pelas ações que ocorreram no início do longa, que tendem a convergir mas são afastadas pela barreira da hipocrisia. De um lado, Nascimento em uma nova vida, desconfortável fora da sua roupa preta em um cargo burocrático na secretaria de segurança, e do outro a ascensão do poder das milícias nas favelas da cidade.
      A identificação com as “situações ficcionais” (como “bem” rotula Padilha antes de começar a brincadeira) são inevitáveis. Os setores da sociedade são vistos e ironizados de forma excelente pelo Coronel Nascimento, que faz mais do que uma narração, trava um dialogo com o público ao apontar o nível de dependência entre as diversas fases do “sistema” que vão do tráfico, as milícias até pontos mais próximos como imprensa e política.
      O tom do filme se difere do seu precursor em diversos aspectos, tanto bons quanto ruins. Para o público que espera as idolatradas cenas de ação e violência do primeiro, pode ocorrer decepção com a diminuição delas, que por outro lado dão lugar a uma discussão mais densa e politizada, que chega a abranger situações ocorridas em todo Brasil.
      Mas não pensem que todas aquelas cenas empolgantes de ação, todas aquelas frases marcantes e os gritos de Nascimento que representam a voz de um povo inteiro ficarão de fora. Não, parceiro, o coração bate mais rápido junto com a trilha instrumental e a câmera nervosa de Padilha que intensifica as excelentes seqüenciais de ação. O áudio do filme transporta o espectador pra dentro da situação.
      A atuação é uma obra a parte. A famosa preparação de atores de Fátima Toledo dá aos artistas a confiança para exercerem com excelência seus papéis. Preciso destacar aqui os diálogos entre Wagner Moura e André Ramiro (o Capitão Matias) que dão um nível de naturalidade quase inexistente no cinema nacional.
      No campo da atuação também pontuo Milhem Cortaz (Coronel Fábio) que transita bem entre o drama e o alivio cômico, sendo responsável pelas melhores tiradas e frases de efeito do filme. Outro grande nome é Irandhir Santos que marca bem sua presença como estreante na franquia como o Deputado Fraga. São atuações tão boas que deixam quase despercebidos o péssimo Pedro Van Held, o Rafael.
      Porém, nem tudo são rosas, e não é difícil encontrar buracos no roteiro. Além de simples cálculos de matemática errados que impossibilitam a idade de um personagem, o filme perde o tom quando tenta mastigar um pouco sua mensagem, cujo significado já teria sido lindamente implicado na narrativa, causando até um certo desconforto pelo desgaste causado.
     Distribuído independentemente, Tropa de Elite 2 já chega marcando recordes de bilheteria, sendo o filme nacional de maior abertura de todos os tempos. Como explicar esse sucesso? São vários elementos, talvez seja a vontade do povo de ver porrada em bandido, ou as atuações, talvez a direção... Mas em uma coisa todos concordam. Tropa de Elite 2 é foda.

4 Estrelas

quarta-feira, setembro 15, 2010

Nosso Lar - By Klaus Hasten.


      Saído do triste e sombrio purgatório do cinema, com assinaturas em roteiros como “Xuxa Requebra” e “Xuxa Popstar”, Wagner de Assis trás para o repertório cinematográfico brasileiro uma das mais caras (e pretensiosas) produções. Baseada (supostamente) na obra do espírito André Luiz, por intermédio do espírita Chico Xavier, o filme levou milhares de seguidores da doutrina espiritual aos cinemas e trouxe polêmicas entre críticos e religiosos, causando o debate entre a análise cinematográfica e os sentimentos emocionais dos fieis a religião.
      O filme inicia com um tom forte e com fôlego de contar a história de como André chegou no mundo dos espíritos, intercalado com flashbacks bem costurados. Nesse mesmo plano, encontramos o que seria uma das maiores barreiras do filme de atingir a qualidade estimada, os atores e sua preparação. Tanto os figurantes quanto alguns atores principais enfrentam problemas a dialogar com a mídia cinematográfica, jogando a esmo uma interpretação e postural teatral em momentos inadequados, transformando o drama sutil em algo exagerado e o medo em algo constrangedoramente ridículo.
        Apesar disso, é possível observar momentos carregados de drama de qualidade. Há um quê de poesia em alguns diálogos, na idéia de ter a chance de reflexão em relação a vida. São pontos muito positivos, principalmente quando o roteiro consegue ultrapassar o didatismo que arrasta pelo filme ao apresentar uma sociedade completamente burocrática e hierárquica como ideal de plano espiritual.
      No entanto, notamos um cuidado especial em relação a fotografia e aos movimentos de câmera. São enquadramentos precisos, porém diga-se de passagem, um tanto quanto exagerados. A trilha sonora no entanto é a pedra preciosa do longa, tornando um pouco mais prazerosa a experiência de acompanha a história. O compositor Philip Glass, conhecido pela sua trilha em Kudum (Scorcese, 1997), consegue acertar a mão no tom, diferentemente dos figurantes que compõem a orquestra fictícia da cidade, que claramente mostram que estão tocando algo totalmente diferente do que ouvimos, erro grave.
O filme tenta dialogar com o psicológico humano, com suas reações em relação a morte, seus medos, seus desejos. A escolha de um ator pouco conhecido para protagonizar é compreensível para contribuir para a veracidade que a história tenta passar, mas acaba se tornando um caminho tolo a medida que vai trazendo diversos outros problemas. Renato Prieto se mostra eficaz em suas feições, porém acaba se perdendo no texto com suas entonações mal elaboradas e sua postura demasiadamente teatral.
      Com uma esfera que beira a ficção-científica, “Nosso Lar” é um filme quase experimental, onde se tenta de tudo um pouco, da comicidade, do drama e até um pouco do terror, mas é mal sucedido ao querer abraçar tudo. Ainda bem que o roteirista pode culpar a história pelos erros no percurso, pois ai fica difícil apontar o dedo para o lugar certo, o do “espírito” que escrevera a obra.

2 Estrelas

domingo, agosto 15, 2010

Os Mercenários - By Klaus Hasten.



      Que os Anos 80 são definitivamente um sinônimo de uma época onde a criatividade transbordava nos diversos meios culturais, todos hão de convir. Buscando trazer um pouco daquele entusiasmo dos seus antigos filmes de ação, Sylvester Stallone (roteiro e direção) reúne todos os atores (e clichês) que marcaram época, para dar ao público o “filme de ação da década”.
      Com uma trama bem rasa, logo na primeira seqüência já somos apresentados ao grupo de mercenários do titulo. Sem qualquer cerimônia, os personagens de Stallone, Jason Statham, Jet Li, Terry Crews e Doug Lundgren chegam na tela com inúmeras lutas, tiros e explosões desnecessárias para a história em si, mas indispensáveis para o expectador inquieto e impaciente, os “turistas” das salas de cinemas.
      Basicamente a sinopse se resume ao grupo de homens que são contratados para derrubar uma ditadura latina. O resto é acessório, são 105 minutos para chegar de A até B, com algumas poucas cenas memoráveis pelo seu nível de astúcia e ironia, outras poucas conseguem mostrar uma certa dramaticidade aliada a uma boa atuação. Porém todos esses pequenos triunfos estão atrelados a seqüências de erros e muita ação cansativa.
      A proposta do filme, assim como muitos do gênero, é explorar um pouco aqueles sentimentos instintivos de dentro dos homens. Com o rolar da fita se torna perceptível que tal proposta se perde, tornando a violência mais um atrativo exagerado entre tantos acontecimentos desregrados e sem cabimento.
      Ao assistir “Os Mercenários” a idéia que se tem é de que todo e qualquer elemento é construído com uma fita adesiva, cada fator é um suplique para o público não tirar os olhos da tela. É tanto apelo que o espectador se pega no meio da sessão tão desnorteado que esquece o propósito do longa e sua história, que aqui, funciona como um quebra-cabeça de roteiros já usados. Stallone criou seu próprio “monstro Frankstein”.
      Apesar dos exageros e da má qualidade de alguns efeitos, as cenas de ação são bem conduzidas pelo inexperiente diretor, uma surpresa no meio das cinzas do que seria um filme de potencial. Os atores oscilam, ora por má atuação, ora por serem mal conduzidos, mas deixo o destaque para Mickey Rourke e Jason Statham, este que deixa um contraste grande em qualidade de atuação nas cenas contracenadas com o fraco Stallone, que só se salva nas cenas mais intensas.
      No fim, temos um filme “homenagem”. Uma espécie de passagem de tocha entre a velha geração de Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger e Bruce Willis para a geração dominada por Statham (mais conhecido por “Carga Explosiva"). Mas mesmo assim, a qualidade do filme se torna uma referencia ao próprio titulo original, The Expendables (Os Dispensáveis), não deixando o longa ir alem daquilo que já era esperado, um evento totalmente dispensável.

2 Estrelas