sexta-feira, julho 24, 2009

Harry Potter e o Enigma do Príncipe – By Klaus Hasten


Após dois anos de espera excessiva e tortuosa, causado por motivos mercantilistas da velha companhia dos irmãos Warner, estréia o sexto e até então mais sombrio capitulo da série de Harry Potter. A estréia que se conjuga em um ritual de fãs devidamente vestidos com vestes da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts expõe toda paixão dos adeptos que não falham a soletrar os feitiços mais difíceis ou guardar seu lugar na quilométrica fila do dia 15 de junho com suas varinhas em punho. Ao som de gritos, os fãs vibram a cada momento do filme, franquia que começou em 2001 no cinema, baseada nas belas linhas que embalaram a infância de boa parte da nossa juventude.
Desde seu antecessor, podemos perceber a forma receosa de dirigir do então estreante David Yates, transparecendo a vontade de agradar os fãs, mas ao mesmo tempo sem saber que linhas do livro traduzir, deixando o filme instável e com diversas pontas soltas. Seu amadurecimento é claro logo nos primeiros minutos do novo longa quando larga da barra da saia da escritora JK Rowling para criar cenas de forte impacto que contribuam para o desenvolvimento da história e a compreensão geral do clima caótico que se estabeleceu com a notícia da volta de Lord Voldemort (interpretado por Ralph Fiennes).
“São tempos loucos!” diz o novato Jim Broadbent, que interpreta o professor Horace Slughorn de maneira bem peculiar, colocando em evidência os caprichos de um velho cansado e de valores flexíveis. Ponto para Yates, que tomou decisões certas no elenco, assim como no anterior quando convidou a excelente Helena Bohan Carter para a Comensal da morte Bellatrix Lestrange. A Sra. Burton parece entrar em transe ao expor nos seus olhares um realismo difícil de ser alcançado quando o assunto é magia.
E esse é o ponto mais difícil, a magia em si que nos livros era tratada com tanta naturalidade e que em filmes prévios era difícil de relacionar, de entrar na história enfim encontrou seu ponto de equilíbrio. Cenas que demonstram que aquele universo tão distante é apenas uma metáfora do nosso, com os mesmos preconceitos, o mesmo regimento burocrático e patético aproximam a audiência da tela. A humanização de personagens distantes, como Draco Malfoy, que foi o ponto alto do filme em termos de interpretação, com questões psicológicas importantes e camadas cada vez mais profundas é o que deixa o filme mais interessante.
O tom leve e a comédia extremamente exagerada, com propósito de descontrair antes do final intenso que está por vir, só não foram piores do que o descaso com o tema central do livro, que são as origens, o que deixou o filme extremamente fora de foco. “Para saber o futuro, voltamos ao passado” diz o trailer que é exatamente como o filme, várias imagens cortadas de uma história excelente com o objetivo de seduzir o expectador, mas sem um fio exato que conecte suas extremidades. Um filme denso e rico, que assim como um diamante bruto, perde seu valor ao não saber encaixar suas excelentes sequências de ação, drama e comédia, intercaladas como se fosse técnica exata.
Mesmo assim, David Yates se mostra um excelente mestre de poções ao saber os ingredientes certos para agradar o público em geral. Ao sair da sala a sensação de estupor pelas cenas fortes e entusiasmo para a próxima seqüência é tão forte que até os buracos mais fortes no roteiro são esquecidos, deixando lugar para a satisfação e sentimento de trabalho bem feito, que fecha com chave de ouro a lista de filmes de verão.



Nota: 8,5