quarta-feira, novembro 03, 2010

Scott Pilgrim Vs. The World - Por Klaus Hasten.


   
      Garoto de 22 anos, com estilo meio andrógeno, conhece garota dos seus sonhos e tenta conquistá-la, sem saber que por trás dela estão sete ex-namorados maléficos. Com essa premissa simples, Scott Pilgrim não faria o sucesso que teve mesmo antes de estrear, então, como explicar toda a campanha para o quase-impossível lançamento aqui no Brasil?
      Baseado na HQ de Bryan Lee O’Malley, a obra apela para o público Indie com suas incontáveis referencias a musica, filmes e vídeo-games, tendo sua própria fotografia totalmente ligada a tais mídias. O longa já começa mostrando a que veio, com uma abertura inspiradíssima e divertida, é desde esse ponto que nos sentimos dentro deste mundo onírico e ao mesmo tempo tão ligado ao nosso, o mundo da cultura pop.
      Michael Cera é Scott Pilgrim, garoto inseguro, sem auto-confiança, que busca nas pequenas coisas a felicidade. De fato, Michael Cera é mais uma vez Michael Cera, com as mesmas gags e o mesmo estilo inconfundível que o deixou notável em Superbad e Juno.Tal reconhecimento se torna uma faca de dois gumes, pois por um lado, temos um ator que se encaixa no papel, mas que acaba sendo também uma extensão dos seus trabalhos anteriores e por conseqüência de difícil separação pelos próprios olhos do público.
      A garota, no caso Ramona Flowers, é Mary Elizabeth Winstead, cuja a proposital inexpressividade deixa a personagem ainda mais profunda e interessante. Tal característica é facilmente confundida como defeito, mas a capacidade da atriz é diversas vezes explorada, com olhares demorados e a dicção perfeita da artista.
      A direção consegue dialogar perfeitamente com a mídia dos quadrinhos, ao procurar posições de câmera que se tornam verdadeiros quadros, que colados lado a lado dariam de fato em uma HQ. As cores saltam da tela em contrastes que tornam ainda mais surreais os eventos passados ao longo do filme, especialmente as batalhas, carregadas das mais puras referencias aos “fights” dos anos 80/90 dos vídeo-games.
      O diretor Edgar Wright realmente surpreende, principalmente devido ao seu passado instável que inclui o ótimo Todo Mundo quase morto e ao mesmo tempo a sofrível adaptação do Guia dos mochileiros das Galáxias. A comédia consegue ter um timing pontual, sem quebrar a rapidez natural que o filme segue, que ao mesmo tempo tem o êxito de coexistir com cenas sutis de emoção, lapidadas em chuvas de metáforas.
 A cada ex-namorado enfrentado por Scott, é perceptível que são fases que ele passa, literalmente, que vão sendo dificultadas com o seguimento do filme/jogo. A trilha sonora busca muito daqueles sonzinhos dos games mais conhecidos, e os poderes dos personagens são de fato o próprio potencial deles, principalmente de Scott, que ao ficar de frente com seus inimigos acaba descobrindo mais sobre si mesmo. 
      Tal equilíbrio consegue perdurar o filme inteiro, deixando o espectador sincronizado com o ritmo da narrativa. Talvez tal velocidade não agrade aos cinéfilos mais moderados, mas com certeza deixará todos aqueles de mente aberta desorientados ao final de uma sessão do filme mais psicodélico do ano.

Nota: 4 Estrelas