quinta-feira, abril 14, 2011

Cópia Fiel - Por Klaus Hasten.



A produtora MK2, conhecida na França pela produção e distribuição de produtos cinematográficos de grande qualidade, foi responsável por um dos maiores sucessos no pais no ano de 2010. “Copia Fiel”, dirigido e escrito pelo iraniano Abbas Kiarostami, foi responsável por ter feito um certo reboliço na última edição do Festival de Cannes, entregando para sua protagonista representada por Juliette Binoche o prêmio de Melhor Atriz.
      Produzido por franceses, dirigido por um iraniano, rodado na Toscana, “Copia Fiel” trás na força de sua história um ar cosmopolita, onde o dialogo que move a trama poderia ter sido travado em qualquer lugar do planeta. Juliette Binoche contracena com William Shimell, o escritor James Miller, que, diferente da primeira, tem sim um nome explicito na película. Ela então é apenas chamada por pronomes e posições sociais, como “mãe” e “esposa”, algo que, propositalmente, interfere em sua individualidade.
      O dialogo entre os dois se inicia a partir de uma discussão metalingüística, que trata da originalidade da arte em si. Kiarostomi aqui indica sua consciência em relação ao perigo de uma trama que se debruça em pequenos clichês, mas ao mesmo tempo se justifica pelas próprias falas do escritor, que estende a bandeira de que “toda a reprodução é original”. A partir desse ponto, em uma pequena viagem que representa um próprio aprofundamento no íntimo do casal, que a discussão praticamente ininterrupta vai desenvolvendo um caráter mais pessoal.
      Utilizando-se de uma fotografia mais fria, um contraponto aos tons quentes e claros em outros longas rodados na Toscana, Abbas Kiarostomi transforma o local no próprio universo da dupla. O reflexo no vidro do carro, em um belíssimo plano-sequência, identifica a força dos dois materializada nos prédios que vão passando, um de cada vez sobrepondo o outro de acordo com o tom da conversa.
      A trama vai criando uma densidade cada vez maior. Se antes acreditávamos que Miller, britânico, apenas era fluente em sua língua, mais tarde percebemos que apenas a usa por opção. A necessidade do personagem de impor sua vontade, de estabelecer suas regras é possível pela própria passividade de sua parceira, que inicia a trama de uma forma desajeitada e pouco confiante.
      Presa em uma janela com vista para um passado bonito e inalcançável e ao mesmo tempo flertando com um futuro sombrio e apático, Binoche se sente acossada pelas relações que estabeleceu com o marido, filho e o próprio mundo. Ao perceber a força oculta dentro de si, começa a virar o jogo, forçando James Miller a usar da língua francesa, a sua língua, aquela e somente aquela que julga capaz de transmitir a profundidade de seus anseios.
      Com um cuidado cirúrgico e delicado com seus cenários, a essência de “Copia Fiel” fica cada vez mais palpável ao espectador. Se é a decadência de um relacionamento que nos é revelado aos poucos, temos como contraponto a própria esperança, e por que não até certo ponto ingenuidade, da protagonista em relação ao casamento. Se o relacionamento deles é ou não um “copia” de diversos outros romances no cinema e na vida real, não importa, o que conta aqui é a forma original de se contar uma história de dois sinos que por mais que tendam a tocar em sincronia, sempre vão ter dificuldade de encontrar um tom em comum.

Nota: 4 Estrelas