Tetro - Por Klaus Hasten.
Se tem um diretor de cinema que foi tão ovacionado quanto injustiçado posteriormente, foi Francis Ford Coppola. O “Poderoso Chefão” dos cineastas de Hollywood que foi aclamado nos anos 70 com seus blockbusters e suas iniciativas que deram mais poder aos diretores, passou por maus bocados em suas tentativas de ingressar em uma forma mais artística de fazer cinema nos anos 90. “Tetro” (2010) é a obra definitiva que coloca Coppola como o “homem que anda nos dois mundos”, seja o dos sucessos mais rentáveis ou das obras intimistas que ele sempre quis fazer.
“Não me importo mais com você”, diz Coppola com a voz do personagem Tetro (Vincent Gallo), para a critica teatral vivida por Carmem Maura, uma representante de todos aqueles críticos que o menosprezaram em suas tentativas de vôos mais profundos.
A trama gira em torno de Benjamin, um garoto de 17 anos perdido no mundo, com referencias familiares precárias. O pai, um famoso maestro, não demonstra se importar muito com seus dois filhos, enquanto seu irmão, Tetro, fugiu para Argentina em busca de inspiração para escrever suas histórias. Com um jeito de “escoteiro”, passos firmes, olhar limitado, Bennie vai ao encontro do seu irmão como uma forma de reconstruir sua família, e principalmente, seu próprio referencial como ser humano.
Ao chegar no bairro de La Boca, Benjamin se depara com uma sombra do que outrora fora seu irmão. Por um lado, adorado pelos vizinhos e pela esposa, uma espécie de boêmio que vive de iluminação, literalmente, nas peças teatrais dos outros. Por outro, Tetro é autodestrutivo e narcisista, um mal-exemplo claro para Bennie, que cada vez mais vai sendo absorvido pela vida intensa do seu irmão, cuja energia é diretamente proveniente da sua imagem paterna.
O desenvolvimento dos personagens principais aqui é fantástico, sem pressa e sem desperdícios nesta etapa, com cenas pontuais e bem aproveitadas. A película preta e branca é não só a visão de Tetro do presente, mas do próprio Coppola, que só permite a aparição de cores em flashbacks e devaneios. A linguagem teatral aqui também é muito forte, seja nos movimentos ou na própria forma de apresentação dos personagens, não poupando exageros até para os mais secundários, o que acaba sendo uma armadilha ao desgastar a trama principal com histórias que não seriam desenvolvidas posteriormente.
A luz em “Tetro” não é uma composição, mas o foco principal onde todos giram em torno como insetos em uma lâmpada. Esta inclusive é a metáfora chave para o entendimento pleno do filme, onde a luz é o estopim para uma série de epifanias e memórias, instigando a sucessão de acontecimentos. “Não olhe para a luz” diz Tetro ao seu irmão, percebendo o dano que tudo aquilo causara em suas vidas.
Com a evolução da dinâmica dos personagens, é possível notar que o tom maniqueísta em relação ao pai de Tetro e ao próprio são quebrados. A imagem do “grande” maestro Tetrocini é propositalmente distorcida pelo filho em prol da inspiração, do “artista”, enquanto o próprio se perde em culpa e na necessidade de viver uma vida épica e cheia de significados, por piores que sejam. Há então uma mudança ao decorrer da trama, de consciência em Tetro, enquanto seu irmão, intoxicado pelo seu ar boêmio e intenso, caminha em passos largos para se tornar o próprio.
“Tetro” tange a grandiosidade a todo momento, criando grandes expectativas em relação a suas tramas, ora surpreendendo, ora decepcionando. Coppola nos trás um filme de arte “clean”, com uma preparação de elenco excelente, personagens densos e profundos, mas que cansa em certos pontos com cenas desnecessárias ou reafirmação do que já fora expresso, tornando seus 127 minutos mais do que um exagero. Para Francis Ford Coppola não importa, pois apos décadas ele finalmente está podendo ser aquilo que sempre sonhou como profissional: Livre.
Nota: 4 Estrelas


1 Comments:
Queria poder comentar mais sobre o filme, pena que eu preferi ir assistir amor e outras drogas no dia. O trailer impressiona não é a toa que é Coppola!
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