segunda-feira, abril 25, 2011

A Minha Versão do Amor - Por Klaus Hasten.



      A comédia no cinema sempre foi algo extremamente subjetivo, justamente por ser algo que difere entre público e repertório pessoal. Um subgênero que vem atraindo cada vez mais as platéias nos últimos anos é a “tragicomédia”, uma  linha de filmes que segue uma visão peculiar do drama, o colocando sob um refletor cômico, sem perder a profundidade.
     “Minha Versão do Amor” se encaixa bem nesse ponto de vista. O filme mostra a vida de Barney, um homem decadente e frustrado, perdido entre os erros do passado, aqui, revelados em grandes flashbacks. Na verdade, a linha do presente, intercalada com os flashbacks, serve apenas como fio condutor, com objetivo de fazer paralelos. A medida em que a trama avança, a duração das cenas no presente vão diminuindo, suas lembranças vão o consumindo ao ponto do único mecanismo de defesa de seu organismo seja esquecer.
      Paul Giamatti foi a escolha mais óbvia para viver o personagem central. Acostumado a viver diversas vezes um arquétipo de homem derrotado, mas ao mesmo tempo com um timing de comédia bem elaborado, Giamatti nos entrega um personagem tridimensional, indo (um pouco) alem daquilo que já havia feito em “Sideways” e “Anti-Herói Americano”. Sua atuação vai sendo testada ao decorrer do longa, que facilita com diálogos bem construídos, mas apresenta uma responsabilidade imensa ao ator, que consegue se sair muito bem.
      A direção de Richard J. Lewis surpreende, justamente por ser seu primeiro longa para o cinema. Vindo de diversas participações em séries de TV, Lewis entra em total sintonia com a história apresentada, criando uma harmonia pontual com os atores em cena. A valorização de planos mais extensos, deixando fluir as atuações e explorando bem os elementos em cena, ajudam a transbordar a delicadeza necessária para contar a história
      A “versão” de Barney, algo bem explícito no livro original e mantido ao máximo possível no roteiro adaptado de Michael Konyves (também inexperiente na área cinematográfica), é de fato o ponto chave do entendimento da história. A decadência desse homem é mostrada como um produto da sociedade que faz de tudo para colocá-lo para baixo, seja com os relacionamentos superficiais que a modernidade apresenta ou sua própria frustração profissional. Aos poucos, essa visão é desmistificada com a ajuda da própria narrativa e vai se provando que o maior inimigo de Barney é ele mesmo e sua própria obsessão, nada para ele é o suficiente.
      A adição ao elenco de Rosamund Pike e Dustin Hoffman são essenciais para a manutenção da trama em seus 132 minutos. Uma consegue dar uma leveza bela, sem se tornar frágil, enquanto o outro, usado como alivio cômico, por mais que tenha seus momentos exagerados e fora de tom (algo similar a sua participação em “Entrando numa Fria maior ainda”), consegue entrar no ritmo em tempo.
      O desgaste da trama é inevitável e, até certo ponto, proposital. Uma escolha perigosa que perde a atenção dos espectadores mas ao mesmo tempo concede a oportunidade de compreender um pouco mais o drama de seu protagonista. Ao fim da sessão, a versão de Barney vai se dissipando, permitindo com que o público crie sua própria versão de uma história ao mesmo tempo universal e íntima.

Nota: 3 Estrelas