Sucker Punch - Por Klaus Hasten.
Se a década de 90 foi conhecida pela reinvenção de idéias da cultura setentista, liderados por Quentin Tarantino e suas referencias a cultura pop, podemos considerar o amanhecer da década passada, início de um novo século, por algo extremamente parecido. A reinvenção agora é diária, as referencias são feitas a filmes de ontem, não a décadas de antecedência. Tudo é mais veloz, o que por um lado afeta na criação, trazendo obras cada vez mais repetitivas, o que destaca cineastas criativos como Zack Snyder.
Com um olhar inegavelmente diferenciado, o que pode-se observar em suas adaptações de “300” e “Watchmen”, Snyder nos trás agora uma obra original, de história e roteiro de sua autoria, “Sucker Punch”. A história da garota internada em um sanatório pelo padrasto, afim de lobotomizá-la para garantir a herança da falecida esposa trás conceitos interessantes, e por que não, inovadores em relação ao desenvolvimento psicológico dos personagens.
Abrindo as cortinas do mundo real, cuja personagem Baby Doll (Emily Browning) é inserida, Snyder nos brinda com uma brilhante abertura, focando nos diversos aspectos pessoais e externos que envolvem nossa protagonista. O cuidado e sutileza da cena emociona ao indicar o abuso do padrasto em relação a irmã de Baby Doll, são cortes poéticos envolvendo o botão que roda no assoalho, uma arma rapidamente retirada da gaveta e o estrondo de um tiro acidental, o gatilho para o próprio desenvolvimento da trama.
Ao nos contextualizar com essa breve abertura, a trama tende a cair em uma qualidade descendente, um gráfico que indica um cuidado visual superior a proposta bela e profunda apresentada em seu início. Somos então apresentados ao mundo do manicômio, velado por outro jogo de sutilezas (desta vez, não tão competente) que envolve a analogia a um bordel, comandado pelos enfermeiros do estabelecimento, que se consideram donos do local.
Demonstrando ser uma personagem extremamente pró-ativa, em contraste com seu rosto passivo e atormentado, Baby Doll busca em suas colegas e em sua própria imaginação fértil, a libertação daquele mundo que não é dela, é então que surge a terceira inclusão fantasiosa da história, e a mais marcante. Agora, inclusa em um mundo que Doll PODE chamar de seu, vemos a personagem em diversos conflitos criados pela sua própria mente em busca dos cinco objetos que a tirariam de seu cárcere.
É neste momento que o toque do diretor fica cada vez mais perceptível, inclusive sua empolgação a utilizar diferentes formas de direção metalingüística. Percorrendo diversos mundos e gêneros fílmicos, que incluem a câmera rápida e nervosa dos filmes de guerra, aos planos abertos dos épicos de magia, Snyder mostra que fez o dever de casa e tem agora a oportunidade de por em prática seu conhecimento teórico. O que primeiramente parece extremamente criativo (principalmente com o efeito da dança que emerge o espectador nesse mundo) se mostra um pouco ardiloso ao se tornar mecânico com o tempo, executado de forma exagerada pelo diretor que transpira a cartase que entrou.
Algo similar foi o que Tarantino fez em “Kill Bill”, porém com uma proposta muita mais consciente e orgânica. Com uma trilha fantástica e uma direção de arte cuidadosa, “Sucker Punch” peca, mas peca pouco. A saída inteligente do próprio labirinto criado por Zack Snyder em sua trama, repito, descendente, poderia ter sido melhor executada, senão fosse o final artificial e forçado que beira ao didatismo.
Nota: 3 Estrelas


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