Harry Potter e as Relíquias da Morte - Por Klaus Hasten.
Quem é Harry Potter? Um garoto bruxo, aprendiz de feitiços, poções e artefatos mágicos? O grande erro de todos, e nisso incluo produtores, espectadores e fãs, é se ater unicamente a mitologia, belíssima diga-se de passagem, mas que representa apenas a superfície do universo profundo criado pela escritora J.K Rowling. A divisão do seu último livro, “Harry Potter e as Relíquias da Morte” em duas partes teve um papel que adoto como meu nesse momento, de trazer humanidade a análise dos personagens ali citados e, ao invés de dividir, eu junto suas metades gêmeas em um só filme de essência própria para construção desta critica.
Partindo como um segmento direto do final de “Harry Potter e o Enigma do Príncipe”, “As Relíquias da Morte – Parte 1” trás um início melancólico, já em evidencia pela trilha de Alexandre Desplat que embala o travelling ao logo em ruínas da Warner Bros, a tempestade ao seu fundo implica a seriedade do que viria a ser tratado. Alvo Dumbledore está morto, algo que já nos é lembrado logo no começo, e a responsabilidade de destruir Lord Voldemort e os sete fragmentos de sua alma, Horcruxes, cai nos ombros de Harry, Rony e Hermione, agora, adultos.
“Nosso mundo não viu ameaça maior”, diz Bill Nighty em sua participação como o Ministro da Magia Rufus Scrimgeor, e realmente, ele está certo. O nível de periculosidade não diminui nem nas cenas mais descontraídas, transformando as risadas descontraídas de outrora em risadas nervosas do estresse causado pelo clima de tensão estabelecido pela direção pontual de David Yates, responsável pela franquia desde seu quinto volume, “Harry Potter e a Ordem da Fênix”. Mesmo em seus derradeiros filmes, Yates não poupa sua câmera de uma direção experimental, calma quando é requisitada uma atenção maior para as falas cada vez mais bem escritas pelo roteirista Steve Kloves, e uma nervosa câmera na mão em cenas de ação, tremendo ao ponto de transportar de vez o espectador para a batalha.
E incrível é notar a naturalidade de transições de cenas de ação para as mais calmas, elas se misturam entre si pelo excelente fechamento estabelecido pela química entre a direção de Yates e a montagem do premiado Mark Day, colega recorrente do diretor. Aqui percebemos cenas calmas, de paisagens vastas e fotografia morta, onde o ritmo lento não tira nem um pouco seu nível de tensão, dando uma aula de cinematografia ao ensinar a todos que tensão não é uma ferramenta exclusiva das cenas de ação rápida e batalhas, mas uma ferramenta de qualquer bom diretor na hora que lhe for conveniente.
Ao ficarem foragidos pelo ministério tomado pela Marca Negra de Lord Voldemort, Harry, Rony e Hermione entram em uma viagem perigosa de decepções, tristezas mas ao fim, autoconhecimento. Se antes víamos apenas atos superficiais, tanto de roteiro quanto de atuação, nos primeiros conflitos do grupo no início da franquia, agora enxergamos seriedade nas rachaduras daquela amizade que enferrujava a medida que eram obrigados a se aprofundar cada vez mais naquela jornada. São momentos secos, mortos, em que a bela trilha de Desplat recorre ao silêncio, dando cacife a atuação do trio.
Nessa primeira parte, observamos a consolidação de Emma Watson (Hermione) como uma das melhores atrizes da franquia, sendo o peso posto em cima dela agora, maior do que nunca. O equilíbrio do trio, cada vez mais instável, obrigatoriamente caiu sobre o lado feminino, sendo Harry e Rony dois pólos que inevitavelmente, pelas diferenças claras de personalidade, acabam entrando em conflito. Daniel Radcliffe (Potter) apesar de suas limitações como ator, demonstra uma afeição verdadeira pelos seu companheiros de cena, fruto de um trabalho intenso de uma década, enquanto Rupert Grint consegue alternar bem entre seu papel de alivio cômico, mas sem perder a complexidade de um personagem, uma pessoa cansada de ser tratada como coadjuvante, recebendo aqui sua merecida atenção.
Apesar da boa dosagem em seus ingredientes, é perceptível na primeira parte alguns exageros referentes a comédia e a gama de informações que precisam ser apresentadas ao espectador. As reuniões entre os comensais da morte e seu líder, Voldermort, tendem a ser sufocantes pelo nível da atuação de grandes exemplos envolvidos como Ralph Fiennes (o próprio Lord das trevas) e Helena Boham Carter (Bellatriz Lestrange). Certos pontos dessas cenas acabam sendo sabotados por um humor que, voluntário ou não, transmite uma maldade superficial. Algo que também sabota o clima do filme é a necessidade de passar informações rapidamente, sem crença no que está sendo posto. Uso como exemplo as falas de Gui Weasley e Mundungos Fletcher no início do longa, personagens que chegam atrasados na franquia em relação ao livros e precisam se explicar de forma corrida.
O fraco clímax na Mansão Malfoy soa estranho analisando “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1” como um filme só, pelo seu ritmo quebrado e sua tensão que diminui ao invés de crescer, sendo concluído em uma cena linda e triste na praia com a câmera na mão, algo naturalista demais para um blockbuster de verão. No fim, ele é apenas o meio de um filme só, apenas mais uma barreira a ser vencida para o verdadeiro clímax imposto pelo Parte 2, sendo ele próprio no fim, um grande clímax da franquia de oito filmes.
Se em sua primeira parte, não vemos Hogwarts, nada mais justo do que iniciar o primeiro plano de seu derradeiro filme com uma vista aérea do lugar que se tornou a casa de não só do órfão Harry Potter, mas de tantas crianças e adultos ao redor do mundo que sentiam falta do amor, esse sim, o verdadeiro protagonista da franquia. E onde outrora víamos nuvens bonitas em contraste com o céu azulado, vemos um clima cinzento, com torres cercadas por Dementadores e corredores vigiados por Comensais da Morte. Alunos marcham no terreno inóspito que se tornou a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, não era mais o lar deles, era uma prisão.
Os olhos analíticos do agora diretor Severo Snape passam da movimentação abaixo de sua torre para o horizonte e seu futuro imprevisível. Todos se preparam para a inevitável batalha final, cada um sentindo a dor prematura do que é poder morrer a qualquer momento... Ninguém é imortal. Vários planos intercalados dos personagens, rimando com o clima do final da primeira parte, precede os diálogos, novamente, muito bem escritos por Steve Kloves pela sua objetividade e naturalidade, uma evolução ao comparar com os roteiros demasiadamente expositivos do início da série.
O humor infantil diminui, e tende inclusive a seguir um pouco o lado negro, com cenas fortes e respostas inteligentes de fala e câmera. A entrada em Gringotes, protagonizada por uma Helena Boham Carter travestida de Hermione que por sua vez assume a forma de Bellatriz indica novamente a competência da atriz por saber lidar com a complexidade da frase aqui dita previamente. Os trejeitos de Emma Watson como Hermione são completamente absorvidos por Helena, dando a cena um tom equilibrado entre tensão e humor sagaz.
Interessante perceber como revisitamos todo o mundo mágico nessa despedida, lugares como o Ministério da Magia, a Toca, Grimmauld Place, e até aqueles que não víamos desde o comecinho da franquia, como Gringotes e a Câmara Secreta. A visão quase minimalista da primeira parte é substituída agora por algo realmente épico, planos mais abertos do que nunca que vão se focando nos pólos da batalha final travada, nada mais nada menos do que na própria Hogwarts.
Apesar dos erros de continuidade e alguns momentos fora de tom, a entrada de Harry na escola é bela como a primeira vez que pisara o chão do lugar, momento de magia relembrado ao fundo com a trilha original de John Williams que, como toda obra do compositor, já se tornara icônica, clássica, levando lágrimas aos olhos dos fãs que cresceram embalados por ela. A admiração dos alunos por Harry e visível nos olhos de cada um, deixando ainda mais bela e, por que não, emocionante, a cena de reencontro que marca o início do fim da franquia.
A fotografia de Hogwarts muda tão facilmente como o teto do Salão Principal, a medida do tom narrativo, que vai do frio gélido e escuro, ao quente bem claro nas partes que assim cabem tal utilização. O diretor de fotografia, Eduardo Serra, novato na série, absorve bem as lições de seus anteriores e trás uma boa compilação de paletas de cores e transmite bem o clima do filme, que assim como sua passagem no livro, tende a ser uma montanha-russa instável narrativamente.
Entre erros e acertos, a batalha tende a ser melhor quando levada a sério por ela mesma, repetindo alguns erros da parte anterior de tentar trazer leveza por vezes, com um humor demasiadamente inadequado por quebrar o ritmo na hora errada, que apesar disso funciona em outras pela perspicácia da escrita. A aproximação entre Harry e Voldemort dá ainda mais o clima crescente de perigo, sendo a divisão de seu clímax de mais de uma hora e meia, bem definida pelas pausas e a dramaticidade envolvida.
Por sinal, se tal instabilidade narrativa na batalha se torna positivo, na hora do drama de verdade acaba sendo uma cilada. Por ser um filme que lida com muitas mortes, é complicado saber encontrar o tom dramático certo para cada uma, sendo a escolha de Yates então deixar um tom de luto geral em todos mas que ainda assim parece não respeitar a seriedade do que está sendo tratado, puxando um pouco mais o filme para o lado infantil e aventuresco em certos momentos pela falta de credibilidade.
Ao lado de gigantes, aranhas enormes, soldados de pedra e Dementadores, o tom épico e mágico está bem estabelecido e com uma identidade própria apesar das semelhanças com outras franquias que lidam com magia. Mesmo assim, os diálogos e os momentos menos explosivos são o que mais chamam atenção, o que mais emociona o espectador. A complexidade como são tratados certos personagens chaves no filme, dando adeus a muitos, é o que mais toca o público, e Yates e sua equipe sabe disso, aproveitando não de forma excelente como poderia, mas muito bem as oportunidades que tem de mostrar um lado novo da história que tem em mãos.
Se existe algum personagem que merece de um tratamento especial nessa análise, mais do que os outros, este é obrigatoriamente Severo Snape. Tratado de forma complexa mesmo desde o início da série, apontado como suposto vilão quando apenas queria defender Harry, Snape sempre evitou mostrar seu melhor lado, justamente pela vida triste e melancólica que teve. Suas cores sempre sóbrias, preto, indicava o luto por ter perdido a única pessoa que amara em toda sua vida em uma decepção que deixou marcas profundas em sua alma, preferiu o preto de resguardo, o preto que se tornou sua marca.
A atuação de Alan Rickman para o personagem sempre foi destoante nos primeiros filmes, sempre superior ao clima infantil, sempre profundo, mesmo sem precisar ser expositivo. Sua imensa admiração por Harry acabou sendo o motivo de tratar tão mal o protagonista, a lembrança da mãe do garoto em seus olhos o desequilibrava, Lilian, o amor de sua vida, que perdera, por culpa exclusiva do sentimento bom que virou ódio. Snape então preferiu se desligar de seus sentimentos o máximo possível, artifício que se tornou cada vez mais difícil nos últimos filmes por tudo que ali teria que lidar. Seu olhar cada vez mais transparente, cada vez mais melancólico. Sem querer, Rickman protagonizou a cena mais bonita de toda franquia Harry Potter, se tornando o personagem mais complexo e real de toda a série.
Junto com Rickman, Ralph Fiennes consegue uma atuação extremamente expressiva, mesmo sem sobrancelhas e nariz, passar toda a decadência de seu personagem que no fundo, tem sua natureza explicada pela inabilidade de amar. “Não tenha pena dos mortos, Harry, tenha pena dos vivos, principalmente aqueles que não podem amar” diz Dumbledore em referencia a Tom Riddle, o garoto que se tornou monstro, o pólo oposto de Harry.
Respondo agora a pergunta que levantei no início do texto. “Quem é Harry Potter?”. No fim, Harry não se trata de um bruxo, ele é um ser humano, com todas as complexidades e anseios de um, só que exponenciais em relação ao normal, não pelos poderes, mas por sua história. Perdendo os pais logo cedo, vivendo com pessoas da pior categoria, Harry cresceu sem referenciais, dependendo apenas de sua imaginação e alta sensibilidade pra saber que algo aconteceria em sua vida, o momento chave dela. “Você é um bruxo, Harry” diz o ingênuo Rubeo Hagrid sem saber que acabara de mudar pra sempre a vida do garoto.
E foram nesses sete anos que Harry, garoto cheio de amor mas sem ninguém para amar, passou a criar laços fortes, quase mágicos por assim dizer. Essa é a raiz de tanta admiração, de tanta identificação pela parte de um público que aprendeu a arte da sensibilidade com esses livros, com essa série. Esse é o relato de um crítico, de um fã, de um ser humano, que como tantos outros, aprendeu o caminho da plataforma 9 e meio e seguiu para Hogwarts, não pra aprender feitiços ou poções, mas para aprender a amar da forma mais pura e interminável.
Nota: Indeterminada.

