THE TORCH

terça-feira, novembro 09, 2010

The Runaways – Por Klaus Hasten.

     
      1975 – A banda de rock, “The Runaways” é formada. Não, 1975 não foi só isso, foi um marco de descobertas, inseguranças e mudanças na vida das cinco integrantes que se tornaram hit entre os jovens da década de 70. Este filme trata especificamente de duas das componentes, Cherie Curie (Dakota Fanning) e Joan Jett (Kristen Stewart).
      A diretora Fiora Sigismondi pode ser novata no ramo cinematográfico, mas usa sua experiência com vídeo-clipes e  fotografia para preencher de significados todo o percurso de seu primeiro longa. São movimentos precisos e quadros extremamente cuidadosos. Aqui, a posição da câmera define os personagens e é imprescindível para o aprofundamento dos mesmo, como a cerca que vista de cima funciona como uma linha tênue entre Joan Jett no início de sua carreira e duas latas de lixo.
      Por sinal, o aprofundamento inicial dos personagens é o verdadeiro brilho do filme. Cherie Curie, comparada com Bridget Bardot e Marilyn Monroe aqui, no fundo, não passa de uma garota confusa. A fragilidade e volatilidade da personagem é medida pela câmera em grandes quadros, como a cena em que ela, em movimentos suaves e infantis, patina com os pés na parede, no centro de duas possibilidades, e a medida que seu passo diminui é possível notar a decisão eminente que tomará.
      A atuação aqui é coadjuvante, temos a instável Dakota Fanning, que se perde diversas vezes em seu primeiro papel “adulto”, não sabendo dialogar com o que se passa em cena ou com o que a câmera quer mostrar. Apesar disso, seus traços de boa atriz ainda são demonstrados em certos momentos, com seus olhares profundos e alguns diálogos bem sucedidos.
      O filme procura se centralizar mais em Cherie Curie e seus conflitos em relação ao lar e a vida incomum de rock star, algo que com o passar do tempo se mostra uma armadilha já que é notável que boa parte das outras subtramas são ofuscadas pelo “brilho” excessivo que Sigismondi joga em cima de Dakota Fanning. O que se perde nessa tendência que se inicia do meio pro final do longa é a excelente atuação de Kristen Stewart e o decréscimo de sua participação. 
      Depois de mostrar seu potencial em “Na Natureza Selvagem”, Stewart teve seu talento menosprezado na série “Crepúsculo”, onde vive a protagonista. Em “The Runaways”, Kristen vive uma verdadeira apaixonada pela vida e pelo Rock, uma personagem difícil de ser encorporada pelo seu temperamento paradoxal, mas extremamente bem conduzido por uma atuação no mínimo memorável.
      “The Runaways” começa apostando em uma abordagem mais sutil, comparado com similares como “Johnny e June” e “Coração Louco”, buscando não superestimar acontecimentos ou cansar o público por vezes insistindo na mesma tecla. A direção é precisa o suficiente para deixar os sentimentos extraídos rolarem sem precisar forçar, a imagem conseguiu vencer a tentação de usar mil palavras.
      Fiora Sigimondi consegue extrair de um roteiro mediano um filme que excede as expectativas. A escolha da diretora foi fundamental, trazendo cores e vida ao filme. No fim, “The Runaways” é uma grande homenagem ao Rock, sendo em sua essência um grande vídeo-clipe, regado a bastante suor, drogas e estrógeno.

Nota: 4 Estrelas.

sexta-feira, novembro 05, 2010

Jogos Mortais VII - Por Klaus Hasten.


Vamos combinar? Chegou um ponto na franquia de Jogos Mortais que os bons apreciadores da sétima arte só se dão o trabalho de assistir os filmes da cine-série esperando pelo final embalado por uma das trilhas mais reconhecíveis dos últimos anos.
Tudo começou com uma idéia extremamente inteligente e uma trama magistralmente trabalhada. Um homem decide testar a vontade das pessoas de viver, em jogos sádicos, porém com o único objetivo de ensiná-las a valorizar suas próprias vidas. Cada jogo simboliza nas suas próprias regras os erros cometidos pelas “vitimas”, colocando em xeque a própria integridade da nossa sociedade com criticas de uma pessoa cansada do que vê.
As coisas iam bem, até a Lions Gate perceber o quanto lucrativo os filmes do “assassino Jigsaw” estavam sendo, e, infelizmente, decidir prolongar até onde pôde. O resultado disso? Os jogos iam perdendo um pouco do seus significados, o sangue preenchia o lugar das palavras e das metáforas dos primeiros, abrindo espaço pros fãs dos filmes gores que entravam pela porta da frente enquanto os críticos mais analíticos corriam para a saída.
Nesta sétima e última (?) edição, Jigsaw (Tobin Bell) continua morto, deixando para o seu seguidor Mark Hoffman (Costas Mandylor) todo o trabalho de sua vida. Ao sobreviver do atentado de Jill Tucker, Mark monta um plano extremamente bem elaborado para conseguir alcançar sua vingança. Em paralelo, como nas 5 últimas seqüências, ocorre um jogo específico que demanda boa parte do tempo em cena, e que, inevitavelmente, será dispensável pra os eventos da septologia como um todo.
As atuações são bem desequilibradas. De um lado, temos a péssima Betsy Russel e vários, vários semi-figurantes que ficam totalmente perdidos, por outro temos o bom Costas Mandylor e o excelente Tobin Bell, que infelizmente tem nesse filme uma das suas menores participações.
A direção, que sofreu várias trocas durante a série, agora fica a cargo de Kevin Greutet, que aposta nos métodos de filmagens já peculiares a franquia, as câmeras rápidas e o velho tremelique que intensifica a agonia nas seqüências dos jogos. Mas alguns pontos interessantes nos últimos foram deixados de lado, como as criativas passagens de cena, que perderam a vida na mão de um diretor que se focou mais em buscar quadros que seriam abusivos na terceira dimensão. Tal ferramenta que inclusive se mostrou inútil a série, provando ser apenas mais uma forma de explorar dinheiro dos espectadores.
O roteiro busca boa parte do tempo trazer informações dos filmes anteriores e felizmente alcança um desfecho a altura dos melhores da série. Consegue ser tão fraco e insosso como os últimos dois porém consegue trabalhar bem com informações novas e surpresas. A mensagem, digerida pelas pessoas há 6 filmes, consegue ter novas faces, mas continua bem clara: “Valorize sua vida”.
Por fim, Jogos Mortais deixará saudade aos fãs, que religiosamente acompanham em todos os Halloweens suas seqüências, e alivio aos críticos, que com razão, acreditam no fato de ser desnecessário o prolongamento da série. O melhor é lembrar das grandes cenas, os choques, as surpresas e valorizar a série que colocou no Hall dos melhores vilões, o sombrio e sábio Jigsaw. Game Over.

3 Estrelas

quarta-feira, novembro 03, 2010

Scott Pilgrim Vs. The World - Por Klaus Hasten.


   
      Garoto de 22 anos, com estilo meio andrógeno, conhece garota dos seus sonhos e tenta conquistá-la, sem saber que por trás dela estão sete ex-namorados maléficos. Com essa premissa simples, Scott Pilgrim não faria o sucesso que teve mesmo antes de estrear, então, como explicar toda a campanha para o quase-impossível lançamento aqui no Brasil?
      Baseado na HQ de Bryan Lee O’Malley, a obra apela para o público Indie com suas incontáveis referencias a musica, filmes e vídeo-games, tendo sua própria fotografia totalmente ligada a tais mídias. O longa já começa mostrando a que veio, com uma abertura inspiradíssima e divertida, é desde esse ponto que nos sentimos dentro deste mundo onírico e ao mesmo tempo tão ligado ao nosso, o mundo da cultura pop.
      Michael Cera é Scott Pilgrim, garoto inseguro, sem auto-confiança, que busca nas pequenas coisas a felicidade. De fato, Michael Cera é mais uma vez Michael Cera, com as mesmas gags e o mesmo estilo inconfundível que o deixou notável em Superbad e Juno.Tal reconhecimento se torna uma faca de dois gumes, pois por um lado, temos um ator que se encaixa no papel, mas que acaba sendo também uma extensão dos seus trabalhos anteriores e por conseqüência de difícil separação pelos próprios olhos do público.
      A garota, no caso Ramona Flowers, é Mary Elizabeth Winstead, cuja a proposital inexpressividade deixa a personagem ainda mais profunda e interessante. Tal característica é facilmente confundida como defeito, mas a capacidade da atriz é diversas vezes explorada, com olhares demorados e a dicção perfeita da artista.
      A direção consegue dialogar perfeitamente com a mídia dos quadrinhos, ao procurar posições de câmera que se tornam verdadeiros quadros, que colados lado a lado dariam de fato em uma HQ. As cores saltam da tela em contrastes que tornam ainda mais surreais os eventos passados ao longo do filme, especialmente as batalhas, carregadas das mais puras referencias aos “fights” dos anos 80/90 dos vídeo-games.
      O diretor Edgar Wright realmente surpreende, principalmente devido ao seu passado instável que inclui o ótimo Todo Mundo quase morto e ao mesmo tempo a sofrível adaptação do Guia dos mochileiros das Galáxias. A comédia consegue ter um timing pontual, sem quebrar a rapidez natural que o filme segue, que ao mesmo tempo tem o êxito de coexistir com cenas sutis de emoção, lapidadas em chuvas de metáforas.
 A cada ex-namorado enfrentado por Scott, é perceptível que são fases que ele passa, literalmente, que vão sendo dificultadas com o seguimento do filme/jogo. A trilha sonora busca muito daqueles sonzinhos dos games mais conhecidos, e os poderes dos personagens são de fato o próprio potencial deles, principalmente de Scott, que ao ficar de frente com seus inimigos acaba descobrindo mais sobre si mesmo. 
      Tal equilíbrio consegue perdurar o filme inteiro, deixando o espectador sincronizado com o ritmo da narrativa. Talvez tal velocidade não agrade aos cinéfilos mais moderados, mas com certeza deixará todos aqueles de mente aberta desorientados ao final de uma sessão do filme mais psicodélico do ano.

Nota: 4 Estrelas