THE TORCH

segunda-feira, março 29, 2010

Como Treinar seu Dragão - By Klaus Hasten.

Por que para virarmos vikings, “homens de verdade”, precisamos do velho e cartesiano trabalho de “matar dragões”? Onde fica a criatividade e a inovação em um mundo onde o suor e a virilidade dominam as pessoas? Por incrível que pareça quem responde essas perguntas é a Dreamworks, empresa de animação que desde a década passada fez questão de viver na sombra da Pixar.
Antes de tudo, é importante ressaltar que estamos falando de uma história de Vikings e Dragões, onde o protagonista é um garoto inseguro que busca lugar no meio dos marmanjos que o cerca. Ponto para Dreamworks, que pelo visto parou de refazer roteiros da Pixar e colocar dubladores famosos para conseguir sucesso, criando uma premissa extremamente original.
Buscando elementos da cultura nórdica, o filme conta a vida de Soluço, príncipe entre os Vikings e inventor criativo por natureza. Mesmo em um universo completamente novo, percebemos nele um garoto como qualquer um, com seus desejos e defeitos, sofrendo a pressão de ser filho do homem mais viril de sua terra (dublado na versão americana por Gerard Butler).
Inserido nesse contexto, porém à frente do seu tempo, Soluço com sua astúcia de “homem” da ciência, consegue capturar seu primeiro dragão, para assim mata-lo e iniciar sua passagem para a fase adulta, uma espécie de ponto de partida para uma vida comum. Mesmo percebendo a necessidade de cometer o ato, Soluço não consegue, não por ser fraco, mas sim por ser um personagem complexo demais para se encaixar na simplicidade do local, Soluço prefere deixar a fera ir.
É a partir desse ponto que compreendemos que a relação dos dois não é apenas de caça e caçador, eles se tornam companheiros na sua mais profunda definição, respeitando e colaborando com a deficiência de cada um, no fim, são um só ser.Na hora do vôo, é possível enxergar além da caprichadíssima computação gráfica e mergulhar no céu e no mar, junto com Soluço e Banguela, uma verdadeira jornada espiritual.
Com todas as piadinhas sem graça dos filmes da empresa, o filme ganha nas partes mais despretensiosas, no verdadeiro laço que cerca a criatura arredia e seu paciente domador, cuja devoção ao amigo é uma forma de auto-preservação, uma forma de mostrar que o sentimento é o verdadeiro manual de saber como lidar com o próximo.
Uma belíssima trilha sonora no melhor estilo nórdico embala essa aventura que beira o poético com suas cenas simples no desenvolver dos personagens, mas majestosa ao colocar o maior nível de detalhes na sua gráfica. A animação mostra, cada vez mais, que são as belas nuvens do céu estrelado do cinema, e cada vez mais, a Dreamworks faz jus ao seu símbolo e simplesmente fica lá de cima observando, pescando o espectador com seu anzol de criatividade.

Nota: 8,0

domingo, março 28, 2010

O Livro de Eli - By Klaus Hasten


O Livro de Eli, filme que se junta no hall dos melhores filmes pós-apocalípticos da nossa era, é um exemplo de como um filme de corpo blockbuster, com todos os recursos que Zack Snider teve para filmar 300, com todo universo novo criado para contar uma história superficialmente simples, pode ter uma essência “cult”.
Um roteiro original que conta a trajetória do andarilho Eli (Denzel Washington) em um mundo onde elementos simples como higiene, educação e água são quase inexistentes e sentimentos como compaixão e honra se perdem, transformando os homens em animais. Dentro desse lamentável mundo novo, temos os mais antigos, aqueles que viveram antes dos 30 verões do pós-guerra, aqueles que guardam a essência do que é humanidade, são homens do futuro, que vivem presos em um tempo que não lhes pertence.
E é nesse futuro que homens assim como Carnagie (interpretado pelo excelente Gary Oldman) se destacam, tornando-se líder entre os bichos ao criar todo um sistema ditatorial, um déspota das cavernas, que procura em um livro, o futuro de uma sociedade controlada inteiramente por ele.
A história contém elementos extremamente simbólicos e é extremamente amplo ao mostrar um pouco de cada uma das mazelas da nossa sociedade atual, mesmo que de forma representativa. É um ambiente trágico, quase monocromático, que evidencia aqueles que estão em contraste com o local, aqueles que não buscam apenas a sobrevivência em um lugar onde a própria vida não vale a pena, mas aqueles que rumam em alguma direção, em constante movimento, contra o conformismo que pregam aqueles que não sabem interpretar a própria vida, e por conseqüência o livro que pode mudar tudo.
O antagonismo entre Eli e Carnagie é logo revelado ao mostrar que o primeiro possui o livro desejado, e assim se inicia a caçada de gato e rato, que com o passar dos tempos, é provado através da metáfora do início do filme que sim, o rato pode comer o gato, e o homem comum não deve nada ao poder imposto pelo Governo. O tal livro que dá nome ao longa, é a chave não só para a “libertação” dos dois homens, um que procura seu destino através do guia que o ajuda nessa terra dura e o outro que busca respostas para o destaque, para a necessidade de manipulação que outrora já foi usado como propósito ao livro, a Bíblia.
Tudo isso não quer dizer que seja mais um filme que usa a religião como proposta original, muito menos que seja um filme de “ação gospel”, o que se trata aqui é de Humanidade, aquela que resta em cada indivíduo, aquela que “move montanhas” e ao mesmo tempo continua representando o futuro da sociedade. O filme é consciente ao mostrar o poder de manipulação da “palavra de deus” e é feliz ao retratá-lo apenas no grau de metáfora, sendo o próprio filme uma, ao revelar que a fé no homem e em nós mesmos deve ser a nossa verdadeira religião.

Nota: 8,7