Alice no País das Maravilhas - By Klaus Hasten.
Logo nos primeiros quadros, embalados pelo som instrumental inconfundível de Danny Elfman, nos sentimos em um lugar estranhamente familiar, com ênfase no “estranho”, adjetivo que não pode faltar em qualquer comentário tecido à filmografia de um dos melhores diretores dos últimos 20 anos, Tim Burton.
A Londres industrial exala o cheiro de chocolate Wonka nos rasgões de violoncelo deflagrados pelo som de Elfman, enquanto a pequena Alice sofre de pesadelos de um mundo esquecido por ela e pela sociedade, que convenientemente a puxa cada vez mais da toca do coelho, para assim seu vestido estar sempre limpo e seu cabelo sempre arrumado.
A história em si se passa 13 anos depois que Alice (Mia Wasikowska) conhece o País das Maravilhas, aos 6 anos. Agora, aos 19 e deslocada no meio da mesma aristocracia vitoriana de Barry Lyndon (1975), Alice se mantêm viva e esperançosa graças aos devaneios apoiados pelo falecido pai. Perdida, naturalmente, a garota do vestido azul ainda tem que lidar com uma proposta de casamento que mudaria sua vida para sempre, atordoando a pobre Alice que perde as rédeas e o equilíbrio da sua história, iniciando assim sua jornada de autoconhecimento pela toca do coelho.
É então que fica cada vez mais registrada a marca de Tim Burton, com certo potencial de exagero na parte gráfica, mas sem fugir ao seu conhecido estilo. Os brancos estourados das roupas finas de Oxford são trocados pelo tom sombrio da terra subterrânea, comandada pela irritadiça Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter), ameaçada pela volta de Alice e a profecia que envolve o fim do seu reinado.
Somos apresentados a uma quantidade exorbitante de personagens novos, e de uma forma bem suave somos reintroduzidos a antigos amigos, como a Lagarta filósofa (dublada pelo sempre excelente Alan Rickman), o Gato de Cheshire, e o Chapeleiro Maluco, interpretado por um Johnny Depp ruivo, bem caracterizado como o representante dos chapeleiros que ficaram loucos pelo contato com o mercúrio, que alterou além das cores do cabelo a sanidade do personagem excêntrico, assim como seu interprete.
Um tom épico é adicionado ao filme no momento onde é estabelecida as peças do tabuleiro das rainhas vermelha e branca (Anne Hathaway, quase irrelevante), aumentando gradativamente a tensão do longa para um efetivo clímax interessante. Apesar disso, tal “epicidade” tem um retorno ruim ao filme, caindo por terra boa parte dos mistérios da terra maravilhosa e inexplicável, beirando certos momentos a um simples país organizado, descaracterizando um pouco a proposta do universo criado pelo autor surrealista, Lewis Carrol.
Apesar da divulgação pesada em cima da imagem de Depp como Chapeleiro, temos que colocá-lo no seu devido local de coadjuvante, destronado do posto de protagonista oficial de Burton pelo incrível trabalho Wasikowska como a garota que precisa chegar ao fundo do poço, crescer sem perder a essência de uma criança, para aprender a tomar as rédeas da própria vida, aceitando de cabeça erguida o fato que existem fatores, seja no mundo real ou “fictício”, que apenas são inexplicáveis, são simplesmente, maravilhosos.
Nota: 8,8



