THE TORCH

segunda-feira, abril 19, 2010

Alice no País das Maravilhas - By Klaus Hasten.


     Logo nos primeiros quadros, embalados pelo som instrumental inconfundível de Danny Elfman, nos sentimos em um lugar estranhamente familiar, com ênfase no “estranho”, adjetivo que não pode faltar em qualquer comentário tecido à filmografia de um dos melhores diretores dos últimos 20 anos, Tim Burton.
     A Londres industrial exala o cheiro de chocolate Wonka nos rasgões de violoncelo deflagrados pelo som de Elfman, enquanto a pequena Alice sofre de pesadelos de um mundo esquecido por ela e pela sociedade, que convenientemente a puxa cada vez mais da toca do coelho, para assim seu vestido estar sempre limpo e seu cabelo sempre arrumado.
     A história em si se passa 13 anos depois que Alice (Mia Wasikowska) conhece o País das Maravilhas, aos 6 anos. Agora, aos 19 e deslocada no meio da mesma aristocracia vitoriana de Barry Lyndon (1975), Alice se mantêm viva e esperançosa graças aos devaneios apoiados pelo falecido pai. Perdida, naturalmente, a garota do vestido azul ainda tem que lidar com uma proposta de casamento que mudaria sua vida para sempre, atordoando a pobre Alice que perde as rédeas e o equilíbrio da sua história, iniciando assim sua jornada de autoconhecimento pela toca do coelho.
     É então que fica cada vez mais registrada a marca de Tim Burton, com certo potencial de exagero na parte gráfica, mas sem fugir ao seu conhecido estilo. Os brancos estourados das roupas finas de Oxford são trocados pelo tom sombrio da terra subterrânea, comandada pela irritadiça Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter), ameaçada pela volta de Alice e a profecia que envolve o fim do seu reinado.
     Somos apresentados a uma quantidade exorbitante de personagens novos, e de uma forma bem suave somos reintroduzidos a antigos amigos, como a Lagarta filósofa (dublada pelo sempre excelente Alan Rickman), o Gato de Cheshire, e o Chapeleiro Maluco, interpretado por um Johnny Depp ruivo, bem caracterizado como o representante dos chapeleiros que ficaram loucos pelo contato com o mercúrio, que alterou além das cores do cabelo a sanidade do personagem excêntrico, assim como seu interprete.
     Um tom épico é adicionado ao filme no momento onde é estabelecida as peças do tabuleiro das rainhas vermelha e branca (Anne Hathaway, quase irrelevante), aumentando gradativamente a tensão do longa para um efetivo clímax interessante. Apesar disso, tal “epicidade” tem um retorno ruim ao filme, caindo por terra boa parte dos mistérios da terra maravilhosa e inexplicável, beirando certos momentos a um simples país organizado, descaracterizando um pouco a proposta do universo criado pelo autor surrealista, Lewis Carrol.
     Apesar da divulgação pesada em cima da imagem de Depp como Chapeleiro, temos que colocá-lo no seu devido local de coadjuvante, destronado do posto de protagonista oficial de Burton pelo incrível trabalho Wasikowska como a garota que precisa chegar ao fundo do poço, crescer sem perder a essência de uma criança, para aprender a tomar as rédeas da própria vida, aceitando de cabeça erguida o fato que existem fatores, seja no mundo real ou “fictício”, que apenas são inexplicáveis, são simplesmente, maravilhosos.

Nota: 8,8

domingo, abril 11, 2010

Mera Coincidência – Por Klaus Hasten.


Para entender a essência da obra de 1997, “Mera Coincidência”, dirigido por Barry Levinson, é preciso lembrar-se de Stanley, personagem de Dustin Hoffman, proclamar, ao vislumbrar a mesa presidencial na Casa Branca, quão fácil seria seu trabalho se fosse Presidente dos Estados Unidos da América, mesmo sendo um produtor de cinema.

O filme que tem como premissa o envolvimento do presidente dos EUA em um escândalo sexual, e logo se desenrola nas ações da equipe que pode cuidar da imagem política do homem mais poderoso do país, que esta prestes a perder a campanha de reeleição. Comandados pelo excelente Robert De Niro no papel de Connie, o homem que vive por baixo dos panos (ou da própria Casa Branca), o time de marqueteiros vivem a mudar o curso da história do país com seus remendos no grande lençol que encobre os verdadeiros mágicos da política.
Com o título original “Wag the Dog” (abanar o cão), temos a metáfora da manipulação exercida pelo núcleo político, sendo não o cachorro que abana o rabo pelo contentamento, mas a política, mesmo sendo apenas a ponta de um país todo, que abana esse país-cão. A comédia que remete muito aos filmes dos Irmãos Cohen pela irreverência e humor negro, tem suas ironias amplificadas com as tomadas quase documentais e a trilha sonora patriótica, mostrando a ingenuidade de um povo com ufanismo tão exacerbado.
Destaque para o personagem de Dustin Hoffman, que já havia sido dirigido antes por Levinson no filme da sua carreira “Rain Man”, com o papel do homem-show, o produtor da história descabida manufaturada para desviar as atenções das indiscrições do presidente. Com seu jeito excêntrico e gravatas chamativas, Stanley emana a aura do homem que devotou tanto da sua vida a ficção que se esqueceu de distingui-la da realidade, tornando ainda mais profundo o papel do diretor da guerra da “democracia” contra inocência, seja do povo albanês como o próprio povo estadunidense, meros peões nesse jogo de tabuleiro em que o verdadeiro objetivo é a realeza da presidência.
Por mais que seja vendido como um filme de De Niro, não empolga tanto quanto seus precursores, tendo a real vitória do longa o desempenho em equipe do trio principal e o reforço cômico de Woody Harrelson no papel que serviu perfeitamente ao seu tamanho. Em seus 97 minutos, Levinson conseguiu seu objetivo: vender seu produto, que é justamente mostrar como funciona o comércio de valores humanos dentro do Estado.


Nota: 8,0

sexta-feira, abril 09, 2010

Quincas Berro D'Água - By Klaus Hasten.



O que define um verdadeiro “auteur” na arte do cinema é a sua paixão pelos filmes e sua necessidade de estar sempre evoluindo na qualidade dos seus longas. Situado cerca de 50 anos antes do seu primeiro filme “Cidade Baixa”, o diretor Sérgio Machado mantêm suas raízes no universo baiano, proporcionando uma história sem estereotipo ou falas carregadas demais, deixando seus diálogos sempre naturais.
Baseado na obra de Jorge Amado, “A Morte e a morte de Quincas Berro D’Água”, o filme trata basicamente sobre a morte e suas conseqüências nas vidas dos outros e na própria trajetória do morto, aqui, um “comandante” da boemia que morreu sem poder desfrutar da sua última festa de aniversário. O recurso da história não linear, com diversos flashbacks ajuda no aprofundamento do psicológico de cada personagem, chamando atenção pro prelúdio da saga épica de Quincas rumo à vadiagem, quando ainda era um homem de família conformado e patético.
Não necessariamente por acaso, temos o excelente Paulo José interpretando nosso herói, e parecidíssimo com o próprio autor que escrevera a obra baseada, temos aqui o próprio alterego do Jorge Amado, escritor cheio de vida que marcou as páginas brasileiras com seu encanto e irreverência. Logo após a morte, recebemos as visitas da família rica e tradicional que Quincas abandonara e também dos não-tão-tradicionais amigos malandros dele, iniciando o conflito entre burguesia e “plebe”.
É interessante analisar a reação de cada um dos personagens diante do acontecimento, da filha Wanda e seu marido pragmático e insuportável vemos a constante necessidade de manter a pose e a calma diante da morte, dos amigos da cidade baixa observamos a negação constante, e é a partir deste fator que se inicia a trama do roubo do cadáver, que saiu por ai para se divertir com os companheiros.
Apesar de certos exageros por parte do humor escatológico, temos aqui uma comédia leve e sutil, não apenas uma comédia por comédia, mas um drama observado por uma lente cômica. Destaque para esses momentos da linha tênue encontrada por Machado entre drama e comédia são as interpretações de Luis Miranda e Frank Menezes, o bêbado otimista e o palhaço poeta e melancólico, colocando em cena os momentos mais intensos dos colegas de cachaça de Quincas.
A parte técnica é um espetáculo à parte. A fotografia e os recursos especiais são efeitos que são incorporados na tela como verdadeiros personagens, Salvador cria vida na mão dessa produção. Sérgio Machado, cinéfilo assumido, coloca a verdade triste dessa sociedade hipócrita, embutida em divertidas ironias, honrando suas influências na Novelle Vague ao mostrar ao mundo sua cidade aos olhos de seus próprios moradores, filhos de um homem de coração enorme como Quincas.
O resultado de todo esse trabalho é um filme inovador no contexto nacional. Saímos do clichê dos filmes de favela e violência e deslumbramos algo realmente novo, que nos é provado desde a introdução animada, até os dilemas mais profundos, como o vivido pela personagem de Mariana Ximenes em busca da verdadeira felicidade. Ao final de tudo, provo minha equivocação ao rotular o longa como um filme de morte, sendo na verdade uma genuína lição de vida.

Nota: 8,5

sexta-feira, abril 02, 2010

Coração Louco - By Klaus Hasten.