THE TORCH

quinta-feira, outubro 28, 2010

Federal - Por Klaus Hasten.


É comum, em um pais tão plural como o Brasil, terem filmes tão bons coexistindo com filmes tão ruins. O mais interessante é quando observamos histórias de assuntos tão próximos e até mesmo compartilhados, com um contraste imenso em relação as suas qualidades.
Policial como deixa bem claro seu cartaz, “Federal” é o estereotipo cuspido e escarrado do gênero. Um grupo de policiais se juntam em uma equipe pra desbancar um traficante. Pronto? Essa é a sinopse? Isso, o filme apresenta uma descrição tão rasa quanto seu próprio desenvolvimento, que trata o expectador como idiota ao usar formulas clichês e desgastadas.
O filme cai em uma série de erros, que começa com o próprio diretor, Erik de Castro, que insiste em enquadramentos e movimentos de câmera que funcionam bem apenas em novelas e programas pra mídia televisiva. Além de outros probleminhas técnicos que envolvem falta de foco fora do contexto ou uma má edição, o roteiro mata qualquer possibilidade de desenvolvimento dos personagens e dos próprios atores, que se vêem reféns de falas absurdamente ridículas.
Selton Mello é o agente Dani (isso, o nome do agente é Dani), que junto ao delegado Vital (Carlos Alberto Ricceli, mas conhecido pelo seu papel na propaganda do colchão Reconflex) e mais um punhado de péssimos atores saídos diretamente de novelas, buscam derrubar o tráfico de drogas em Brasília, comandado por ‘Beque’ (Eduardo Dusek em um papel digno de vilão de Malhação).
Em meio ao submundo, vemos cada um dos personagens tentando balancear um pouco a vida como policial e como ser humano, mostrando como é difícil o equilíbrio entre os dois. Aos poucos, o diretor se  esforça em nos mostrar como é inevitável a queda do homem com distintivo para a ascensão do policial com ciência das suas obrigações. Tudo isso é embalado em cenas desnecessárias que enfatizam a incapacidade do diretor e roteirista de fazer o público se interessar no longa.
O filme surge de um roteiro que impressiona pelo fato de ter demorado quase 20 anos para ser concluído pelo cineasta Erik de Castro. Depois de anos reunindo noticias e informações em um caderninho, com intuito de ter uma maior veracidade ao construir seu filme, Erik só nos prova que sua ambição não funcionou, ao fazer um filme literalmente com um roteiro de rascunho.

2 Estrelas

segunda-feira, outubro 11, 2010

Tropa de Elite 2 - por Klaus Hasten.


       
   A franquia “Tropa de Elite”, iniciada em 2007 pelo diretor José Padilha, parece causar um frenesi tão grande nos sentimentos do espectador que parece ser impossível escrever uma análise centrada e imparcial, mas missão dada é missão cumprida, né parceiro?
  Capitão Nascimento (agora Coronel) se consagra como o anti-herói brasileiro definitivo. Um personagem passional e trágico que mantém sua sanidade com um equilíbrio perverso entre uma vida pessoal aos pedaços e um trabalho que proporciona a adrenalina necessária para saciar seu vicio.
     O segundo filme da franquia contribui para o aprofundamento do personagem interpretado pelo brilhante Wagner Moura. A trilha que lembra o estilo de Ennio Morricone contribui para o clima de “loner” que gira em torno de Nascimento, um verdadeiro herói do velho oeste que se vê perdido no meio dos diversos esquemas políticos que giram em torno dos problemas sociais do Rio de Janeiro. O inimigo, realmente, agora é outro.
    A trama é na verdade um paralelo criado pelas ações que ocorreram no início do longa, que tendem a convergir mas são afastadas pela barreira da hipocrisia. De um lado, Nascimento em uma nova vida, desconfortável fora da sua roupa preta em um cargo burocrático na secretaria de segurança, e do outro a ascensão do poder das milícias nas favelas da cidade.
      A identificação com as “situações ficcionais” (como “bem” rotula Padilha antes de começar a brincadeira) são inevitáveis. Os setores da sociedade são vistos e ironizados de forma excelente pelo Coronel Nascimento, que faz mais do que uma narração, trava um dialogo com o público ao apontar o nível de dependência entre as diversas fases do “sistema” que vão do tráfico, as milícias até pontos mais próximos como imprensa e política.
      O tom do filme se difere do seu precursor em diversos aspectos, tanto bons quanto ruins. Para o público que espera as idolatradas cenas de ação e violência do primeiro, pode ocorrer decepção com a diminuição delas, que por outro lado dão lugar a uma discussão mais densa e politizada, que chega a abranger situações ocorridas em todo Brasil.
      Mas não pensem que todas aquelas cenas empolgantes de ação, todas aquelas frases marcantes e os gritos de Nascimento que representam a voz de um povo inteiro ficarão de fora. Não, parceiro, o coração bate mais rápido junto com a trilha instrumental e a câmera nervosa de Padilha que intensifica as excelentes seqüenciais de ação. O áudio do filme transporta o espectador pra dentro da situação.
      A atuação é uma obra a parte. A famosa preparação de atores de Fátima Toledo dá aos artistas a confiança para exercerem com excelência seus papéis. Preciso destacar aqui os diálogos entre Wagner Moura e André Ramiro (o Capitão Matias) que dão um nível de naturalidade quase inexistente no cinema nacional.
      No campo da atuação também pontuo Milhem Cortaz (Coronel Fábio) que transita bem entre o drama e o alivio cômico, sendo responsável pelas melhores tiradas e frases de efeito do filme. Outro grande nome é Irandhir Santos que marca bem sua presença como estreante na franquia como o Deputado Fraga. São atuações tão boas que deixam quase despercebidos o péssimo Pedro Van Held, o Rafael.
      Porém, nem tudo são rosas, e não é difícil encontrar buracos no roteiro. Além de simples cálculos de matemática errados que impossibilitam a idade de um personagem, o filme perde o tom quando tenta mastigar um pouco sua mensagem, cujo significado já teria sido lindamente implicado na narrativa, causando até um certo desconforto pelo desgaste causado.
     Distribuído independentemente, Tropa de Elite 2 já chega marcando recordes de bilheteria, sendo o filme nacional de maior abertura de todos os tempos. Como explicar esse sucesso? São vários elementos, talvez seja a vontade do povo de ver porrada em bandido, ou as atuações, talvez a direção... Mas em uma coisa todos concordam. Tropa de Elite 2 é foda.

4 Estrelas