THE TORCH

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Além da Vida - Por Klaus Hasten.

     




      O tema morte e suas especulações sobre o que acontece depois dela é algo recorrente nos cinemas desde sempre. “Alem da Vida”, dirigido por Clint Eastwood a partir do roteiro de Peter Morgan, é um exemplo de como encontrar o tom certo em um sub-gênero desgastado do drama, sem didatismo, o que tem se mostrado mais difícil nos últimos tempos em que o cinema tem se tornado uma ferramenta cada vez mais política.
      O que pode parecer uma história batida sobre espiritismo, se mostra algo totalmente diferente na visão de Eastwood. As três tramas principais que, invariavelmente, tendem a se encontrar, tratam de fatores ligados a espíritos, mas no fundo o tema principal aqui é a morte e a forma como as pessoas lidam com esse acontecimento.
      Seguindo uma ordem intercalada e metódica que acaba não agradando por engessar a trama de forma mecânica, são contadas as histórias da francesa Marie Lelay (Cecile de France), o paranormal George e o garoto britânico Marcus. A primeira, no caso a que introduz o filme, é uma história promissora da jornalista que apos experimentar a morte decide buscar informações para escrever um livro. Enquanto isso, nos Estados Unidos, George foge ao máximo da sua “maldição” de ter contato com os mortos, o impossibilitando de viver bem como vivo. O caso de Marcus, o mais bonito e tocante, é a história de um garoto que perde seu irmão gêmeo e tem dificuldade de viver individualmente no mundo.
      As histórias coexistem bem entre si, mas sua proposta de equilíbrio entre as três é quebrada com o obvio desnível de interesse que ocorre. Enquanto a primeira começa com uma cena de tsunami, com proporções gigantescas e excesso do uso de computação gráfica (um elemento fora de tom no contexto do filme) ela vai se retraindo pra algo mais intimo, mas que ao mesmo tempo que o faz, perde força. A segunda é a mais equilibrada, a única que funcionaria por si só, com Matt Damon interpretando um homem com sérios conflitos internos, bem exteriorizados nas expressões raras de “machão” impressas em Damon, algo que com certeza remete as próprias antigas atuações do diretor Eastwood.
      Já a história de Marcus, começa de forma muito organizada, bem apresentada, com os elementos dispostos com fluidez para os acontecimentos que se sucederiam. A atuação introspectiva do garoto Frank McLaren preocupa no começo, com suas expressões vagas e distantes, o que com o tempo vai se mostrando algo importante para a construção do momento que o comprova como excelente ator dramático.
      Cores frias e escuras predominam os ambientes e os figurinos, principalmente dos personagens cujo “toque” de morte mudou suas vidas. Dos três, o personagem com maior predominância da escuridão, seja interno ou externamente é o George, que em contraponto com as cores de sua cidade, não consegue se sentir pertencente a um lugar. Seu problema não é de mudança de postura, pois este o tenta a todo momento, mas é algo circunstancial. Na primeira oportunidade de melhoria de vida, de “coloração”, com os ruivos cabelos da competente Bryce Dallas Howard (marcante participação) seu passado e sua maldição o trás de volta para o trágico fato de que seu destino é ser só.
      Com um estilo que foge a direção peculiar de Eastwood, “Alem da vida” trás  um quê de Inarritu (Babel, Biutiful) misturado com Krzysztof Kieslowski (“Trilogia das Cores”, principalmente nas sutilezas do núcleo Frances). Um filme que não exagera em questões políticas e religiosas, mas as toca, até com certas criticas pontuais. No fim, o que o difere de tantos outros filmes que compartilham o assunto é a abordagem: Aqui não são os mortos, espíritos e fantasmas que precisam “ir para a luz”, mas são os próprios vivos que devem aprender a lidar com a dor da perda e seguir em frente.

Nota: 3 Estrelas

     
     

Tetro - Por Klaus Hasten.




      Se tem um diretor de cinema que foi tão ovacionado quanto injustiçado posteriormente, foi Francis Ford Coppola. O “Poderoso Chefão” dos cineastas de Hollywood que foi aclamado nos anos 70 com seus blockbusters e suas iniciativas que deram mais poder aos diretores, passou por maus bocados em suas tentativas de ingressar em uma forma mais artística de fazer cinema nos anos 90. “Tetro” (2010) é a obra definitiva que coloca Coppola como o “homem que anda nos dois mundos”, seja o dos sucessos mais rentáveis ou das obras intimistas que ele sempre quis fazer.
      “Não me importo mais com você”, diz Coppola com a voz do personagem Tetro (Vincent Gallo), para a critica teatral vivida por Carmem Maura, uma representante de todos aqueles críticos que o menosprezaram em suas tentativas de vôos mais profundos.
      A trama gira em torno de Benjamin, um garoto de 17 anos perdido no mundo, com referencias familiares precárias. O pai, um famoso maestro, não demonstra se importar muito com seus dois filhos, enquanto seu irmão, Tetro, fugiu para Argentina em busca de inspiração para escrever suas histórias. Com um jeito de “escoteiro”, passos firmes, olhar limitado, Bennie vai ao encontro do seu irmão como uma forma de reconstruir sua família, e principalmente, seu próprio referencial como ser humano.
      Ao chegar no bairro de La Boca, Benjamin se depara com uma sombra do que outrora fora seu irmão. Por um lado, adorado pelos vizinhos e pela esposa, uma espécie de boêmio que vive de iluminação, literalmente, nas peças teatrais dos outros. Por outro, Tetro é autodestrutivo e narcisista, um mal-exemplo claro para Bennie, que cada vez mais vai sendo absorvido pela vida intensa do seu irmão, cuja energia é diretamente proveniente da sua imagem paterna.
      O desenvolvimento dos personagens principais aqui é fantástico, sem pressa e sem desperdícios nesta etapa, com cenas pontuais e bem aproveitadas. A película preta e branca é não só a visão de Tetro do presente, mas do próprio Coppola, que só permite a aparição de cores em flashbacks e devaneios. A linguagem teatral aqui também é muito forte, seja nos movimentos ou na própria forma de apresentação dos personagens, não poupando exageros até para os mais secundários, o que acaba sendo uma armadilha ao desgastar a trama principal com histórias que não seriam desenvolvidas posteriormente.
      A luz em “Tetro” não é uma composição, mas o foco principal onde todos giram em torno como insetos em uma lâmpada. Esta inclusive é a metáfora chave para o entendimento pleno do filme, onde a luz é o estopim para uma série de epifanias e memórias, instigando a sucessão de acontecimentos. “Não olhe para a luz” diz Tetro ao seu irmão, percebendo o dano que tudo aquilo causara em suas vidas.
      Com a evolução da dinâmica dos personagens, é possível notar que o tom maniqueísta em relação ao pai de Tetro e ao próprio são quebrados. A imagem do “grande” maestro Tetrocini é  propositalmente distorcida pelo filho em prol da inspiração, do “artista”, enquanto o próprio se perde em culpa e na necessidade de viver uma vida épica e cheia de significados, por piores que sejam. Há então uma mudança ao decorrer da trama, de consciência em Tetro, enquanto seu irmão, intoxicado pelo seu ar boêmio e intenso, caminha em passos largos para se tornar o próprio.
“Tetro” tange a grandiosidade a todo momento, criando grandes expectativas em relação a suas tramas, ora surpreendendo, ora decepcionando. Coppola nos trás um filme de arte “clean”, com uma preparação de elenco excelente, personagens densos e profundos, mas que cansa em certos pontos com cenas desnecessárias ou reafirmação do que já fora expresso, tornando seus 127 minutos mais do que um exagero. Para Francis Ford Coppola não importa, pois apos décadas ele finalmente está podendo ser aquilo que sempre sonhou como profissional: Livre.

Nota: 4 Estrelas

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Besouro Verde - Por Klaus Hasten.



      Algumas histórias são tão belas que reverberam pela eternidade, instigando os roteiristas e diretores a atualizarem tais obras, como uma forma de refrescar e homenagear ao mesmo tempo. Em alguns (poucos) casos, a arte do “remake” chega a superar seu original, dependendo do cuidado e preocupação que se tenha com a história, algo que Tim Burton alcançou na sua belíssima versão de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” (2005).

      Não é preciso ter conhecimento de que Seth Rogen e Evan Goldberg são os roteiristas responsáveis por “Besouro Verde” (2011) para notar as semelhanças com outras obras da dupla conhecida por seus projetos produzidos por Judd Apatow (Ligeiramente Grávidos, Superbad...). Aliados a direção do francês Michel Gondry (aclamado por “Brilho Eterno de uma Mente sem lembranças”) o resultado é um filme que se mantém apoiado nas séries de rádio e TV do mesmo personagem, sendo por si só um filme fraco.
      A história de origem do “super”-herói que completa quase oitenta anos de existência é a base para trama. O herdeiro milionário, Britt Reid (Seth Rogen, o próprio) perde o pai e se sente compelido a fazer justiça com as próprias mãos. E assim nasce o “Besouro Verde”, que junto ao seu parceiro Kato (Jay Chou), invade as ruas de Los Angeles com muito estilo.
      E de fato não falta estilo no longa, com um visual elegante e cores bem aproveitadas, o problema maior do filme é o seu próprio conteúdo, que acaba se perdendo entre tantas transições de gêneros. Ao começar pela forma pobre e superficial de apresentação dos personagens, com destaque para as diversas fases do amadurecimento de Britt Reid que, por pressa ou descaso, acabam sendo mal desenvolvidas. No fim, o que importa aqui é ação, velocidade, e aquilo que vem se tornando o câncer do cinema atual: O uso da câmera exclusivamente para o destaque do efeito 3D.
      Christopher Waltz, ganhador do Oscar de Melhor ator coadjuvante em 2010, é Chudnofsky, um vilão com crise de identidade, e, por não entender seu próprio papel de vilão, passa o filme discutindo sua metodologia criminal em cenas fantásticas, em destaque para o seu dialogo inicial com James Franco.É um momento em que a industria do cinema pára e analisa o que tem feito com seus vilões, que cada vez mais estão se tornando fracos e apagados. Pura metalinguagem!
      Infelizmente, ao analisar “Besouro Verde”, a cada ponto positivo que encontramos, dois negativos se mostram. Seth Rogen é, atualmente, um dos atores de comédia mais inspirados, mas a cada fala e expressão é possível perceber que o uniforme preto e verde não lhe cabe, o tornando uma espécie de “protagonista-alívio-cômico”, sem a força suficiente para manter o fio da trama. “Besouro Verde” é o caso típico de um filme que não sabe se deve ser levado a sério ou não, uma indecisão que só faz afastar mais o público cinematográfico que vem se tornado cada vez mais crítico.


Nota: 2 Estrelas

domingo, fevereiro 20, 2011

127 Horas - Por Klaus Hasten.


 
      O homem é o único ser vivo que tem consciência de que, em sua estrada, tudo leva para o único e irremediável fim: A morte. Mesmo assim luta, chora, ri, se diverte e vive em busca daquela peça fundamental que completa de vez a gama dos instintos humanos fundamentais: A sobrevivência. O diretor e roteirista Danny Boyle usa a história de Aron Ralston como uma metonímia dessa idéia universal, dando ao filme quase monólogo essa expressão abrangente.
      O que torna “127 Horas” um filme fora dos padrões do “survival movie” comum, é a forma como a harmonia do roteiro e direção brinca com o espectador, o levando nas horas certas a sentir o que lhe é servido. Se temos uma abertura positivista, com excesso de cortes e recheado de uma edição experimental com tom de documentário esportista “maneiro”, é porque Danny Boyle sabe que tudo isso só aumentaria o peso da queda do fone de ouvido que tirava Ralston da realidade do mundo. Uma queda tão forte quanto a da pedra que o prenderia em um dos cantos mais obscuros do mundo, é então que vemos que Boyle não está ali pra brincadeira.
      Sempre fazendo referencia ao ser humano de uma forma genérica, temos aqui um protagonista que ao analisar o conteúdo do que carrega, descobre que está munido apenas de supérfluos. Ao passar das horas, Aron vai criando consciência de seu pequeno tamanho relativo ao mundo, auxiliado pela câmera alta que exerce um peso ainda maior ao tom sufocante que o longa alcança, aprofundando ainda mais a inesgotável discussão de Homem X Natureza.
      James Franco engrandece o filme com sua atuação eloqüente, transmitindo com toda sua expressividade as mudanças de postura e ao mesmo tempo a resistência quase sobre-humana do personagem. Mesmo com algumas falas desnecessárias e alguns momentos que quebram o tom proposto pelo filme (no caso, questão de roteiro), Franco se mostra capaz de encarar o desafio que de longe é um dos maiores para qualquer ator: o de ter a responsabilidade de atuar sozinho.
      A medida que a natureza começa a incorporar a presença de Aron em seu ambiente, com a morte chegando cada vez mais perto, seja o olhando de cima em seu vôo matinal, ou subindo pelo seu corpo em forma de grandes formigas, o longa vai adentrando em outra discussão sobre a psicologia humana: A fragilidade do Homem e sua relação com a Morte. A força desses momentos são o que mais tem de riqueza no longa. “Morrer é como ver uma festa preso do lado de fora” insinua a câmera-poética de Boyle com passagens oníricas memoráveis.
      “127 Horas” é a arte crua, exposta em uma bandeja de pedra artesanal, uma reflexão sobre o papel do ser humano no mundo pela sua própria visão. Cheio de comédia involuntária e humor negro, é um filme que pula entre o positivo e o negativo a cada minuto, deixando apenas claro no desfecho que é uma simples e bela celebração a vida.

Nota: 5 ESTRELAS!
     

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Bravura Indomita - Por Klaus Hasten.


       
      Difícil encontrar alguém que se intitule apaixonado por cinema, que não tenha uma queda pelos filmes Westerns. A partir da segunda metade do século XX, o mundo se deslumbrou com personagens marcantes interpretados por Clint Eastwood, Henry Fonda e John Wayne, este último que estrelou o original “Bravura Indômita” (1969), cuja história interessou e muito os excêntricos irmãos Cohen.
      Joel e Ethan Cohen são pais do vencedor do Oscar de melhor filme em 2008, “Onde os Fracos não tem Vez”, filme que flerta com o Western com seu estilo e suas abordagens, mas só em “Bravura Indômita” (2010) que os irmãos entram de cabeça no mundo do velho oeste.
      O homem do velho oeste, o cowboy, é o elo perdido entre o homem das cavernas, irracional e o homem moderno, artificial e metódico. O personagem de Jeff Bridges, Rooster Cogburn, é exatamente a representação desse individuo que age por instinto, acredita não se preocupar com os outros e só descobre seus verdadeiros sentimentos na hora que mais precisa. Uma pessoa que precisa olhar no cano do revolver pra saber se é ou não, um homem honrado, de bravura indômita.
      O cenário aqui é uma cidade do Arkansas. A idéia cuspida e escarrada da cidade Western, com saloon aberto todo o tempo, a funerária com caixões expostos no meio da rua e a delegacia para mostrar que há lei no local, mesmo que ela seja tão subjetiva e impotente quanto nos dias de hoje. “Quem é o xerife?”.
      Uma garota de 14 anos (Halee Steinfeld), que perde o pai assassinado por um bandido, busca vingança, encontrando em Cogburn, uma espécie de caçador de recompensas, a possibilidade de fazer justiça. Apos cruzar o rio que a separa do seu passado, Mattie percebe que fez uma escolha sem volta, e de uma forma ou outra, seria o marco que a tiraria da vida de garota e a transformaria em mulher, mesmo de forma tão inortodoxa.
      Os planos afastados dos Cohen dão uma dimensão ainda mais real a história, dando ao espectador uma visão privilegiada, mas que peca ao também aumentar a distancia, perdendo a imersão necessária em certos momentos. A atuação de Jeff Bridges, excelente como sempre, é forte e marcante, porém mostra que o “Dude” não diversifica muito o estilo de atuação em seus papéis, o transformando em um “ator de uma face”.
      A Jóia da atuação aqui é a estreante Halee Steinfeld, que se mostra capaz de domar diálogos longos com uma excelente dicção e firmeza na voz, tudo necessário para interpretar a garota-mulher que mesmo consciente dos seus atos, não sabe o que a espera ao mexer nas partes mais íntimas dos homens: seus egos. Outra boa interpretação é a de Matt Damon, que vive o estereotipo atual do cowboy, como um “Texas Ranger” que acredita no maniqueísmo, o “mocinho” que por não saber se encaixar em um mundo em constantes mudanças, acaba se dando mal diversas vezes, sendo rebaixado até para alivio cômico.
     Os Irmãos Cohen fizeram muito mais pela história do que dar um som espetacular e uma imagem de primeira, eles deixaram suas impressões digitais por toda película. São as piadinhas racistas que fazem rir o espectador despercebido, a capacidade de transição de clima em uma mesma cena (principalmente ao encaixar a violência no contexto) e a dinâmica que chega a dar uma leveza até um pouco incompatível ao tom da história.
      Ao assistir a “Bravura Indômita”, a palavra que mais recorre na mente de quem acompanha de forma mais analítica é “Épico”. A cada cena, a cada quadro, a cada som de tiro, é perceptível o cuidado minucioso de demonstrar carinho a história que tiveram com o filme, algo que só pessoas tão apaixonados pelo cinema sabem fazer.

Nota: 4 Estrelas

sábado, fevereiro 05, 2011

O Discurso do Rei - Por Klaus Hasten.




Se em outro filme recente, “O Cisne Negro”, a arte influencia na vida, “O Discurso do Rei”, um filme de época baseado em fatos reais, prova que a vida não só influencia a arte, mas a deixa cada vez mais palpável.
      Tom Hooper, diretor conhecido por retratar nos cinemas e na televisão histórias reais, mais especificamente envolvendo a História britânica, nos trás um filme ímpar em sua filmografia, que tem o um “quê” de refrescante em um estilo perigoso de fazer filmes.
      Trazendo Colin Firth como o Rei George VI, Hooper coloca em cena a época das Grandes Guerras na Europa, uma época onde o poder da palavra era decisivo, principalmente vinda dos grandes lideres. Invés dos habituais filmes históricos quase documentais, com fatos seguindo mais fatos, sem alma, secos, “O Discurso do Rei” trás uma história mais humanas e pessoais, com um personagem tão interessante que quase parece inventado.
      Mas como, um filme que se passa na Inglaterra dos anos 30, focando a família real, pode ser tão interessante? A resposta está no FOCO! O roteiro aqui não se limita ao falar sobre uma guerra ou sobre um evento histórico, o filme se trata de um ser humano, um ser humano com problemas psicológicos que são exteriorizados fisicamente, com a gagueira do Rei George VI, que se trás propositais risos em diversos momentos da trama, é uma forma de surpreender o espectador mais tarde com a profundidade que esta deficiência exerce na narrativa.
      Com a ajuda de sua esposa (a excelente Helena Bonham Carter) George, ou “Bertie”, é obrigado a passar pela inortodoxa terapia de fala  de Lionel Logue (Geoffrey Rush), um ator fracassado que ganha a vida ajudando pessoas com seus problemas de comunicação. É ao entrar na sala de Logue que George, o duque e futuro rei, se torna “Bertie”, o garoto cuja infância mal vivida e traumatizante na monarquia britânica tirou seu poder de fala, sua habilidade de se relacionar e sua própria auto-estima.
      O filme patina com uma fluidez incrível em seus 118 minutos. A direção de Hooper aqui é leve e tranqüila, mas sem cair na inocência e no puro ato de contar uma história. A câmera consegue ser companheira dos personagens, aproximando o espectador da história, auxiliando no excelente timing de comédia e mostrando uma visão peculiar e inexplorada da Realeza.
      Colin Firth se adapta perfeitamente ao papel do Rei Gago, com os movimentos certos e equilibrados para convencer e ao mesmo tempo não exagerar. Mesmo com tanta habilidade de atuação de Firth, o destaque nessa área aqui é de Geoffrey Rush, com um personagem extremamente interessante e excêntrico, interpretado com imensa naturalidade pelo ator.
      Indicado a doze Oscars no ano de 2011, “O Discurso do Rei” prova que a arte de fazer filmes não está tão desgastada como parecia e que é possível se surpreender com um filme de roupagem antiga e cansativa. Sem grandes pretensões e com uma forma acessível de dirigir, Tom Hooper nos brinda com um filme tocante e leve, o equilíbrio estável entre a beleza da sétima arte e o bom entretenimento.

4 Estrelas

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

Cisne Negro – Por Klaus Hasten.



      “Cisne Negro”, novo filme de Darren Aronofsky, fala sobre a preparação de uma bailarina para fazer o papel principal na famosa dança do “Lago dos Cisnes”. Ao assistir a película e adentrar as diversas camadas de significados da obra, o espectador percebe que não está assistindo a mais um filme, está vendo a mais pura arte, raridade nos multiplexes atuais.
      O projeto foi abraçado pela Fox Searchlight, braço da Fox que se foca na produção de belíssimos filmes independentes como “Pequena Miss Sunshine”, “Quem quer ser um milionário” e “(500) Dias com Ela”, mantém o nível da tradição da produtora de fazer bons filmes. Darren Aronofsky, após ter tido seu “O Lutador” indicado ao Oscar de Melhor Filme em 2009, chega agora com um filme mais denso e maduro, sendo indicado ao mesmo prêmio que seu ‘irmão mais velho’.
      Natalie Portman vive Nina, uma bailarina que fora criada com o intenso incentivo da mãe, uma artista fracassada que espelha sua vida na filha, e dá seu suor e sangue para atingir a perfeição. Nina enxerga aos poucos sua vida metódica ir desmoronando a medida que tem o desafio de enfrentar a árdua tarefa de representar nos palcos tanto o Cisne Branco, metáfora do lado bom e inocente existente dentro do ser humano, quanto o Cisne Negro
       O Cisne Negro, destaque e titulo da obra, é o lado inexistente nas características exteriores da personagem, um lado que vai sendo puxado pelo diretor do espetáculo vivido por Vincent Cassel, que tem com esse objetivo dar mais naturalidade a personagem do cisne. A situação fica insustentável com a chegada de Lily (Mila Kunis), a personagem sem dúvidas mais ambígua da história, que causa dúvida e insegurança na já conturbada Nina.
      Em meio a passagens oníricas e propositalmente abertas ao ponto de gerar discussões ao público sobre os aspectos psicológicos da personagem de Portman, a trama acompanha sua protagonista em literalmente todos seus 108 minutos, obrigando o espectador a sentir a história como sentiu sua “heroína”, que tem seu trágico destino já traçado desde a estonteante introdução. A direção aqui é pesada, sufocante, valorizando seus atores com excesso de closes com objetivo ainda maior de dar mais gravidade a já alucinante trama.
      A câmera persegue Nina por todos os cantos, sendo sua sombra quando está andando em direção a algo, seu reflexo quando a mesma se olha no espelho ou um olhar curioso nas seqüências longas, sem cortes excessivos, mais um atributo pra valorizar a pérola da atuação marcante de Natalie Portman. As cores frias dão ainda mais seriedade a película, deixando os poucos momentos coloridos da história naqueles que se passam no interior da personagem, que se exterioriza em mil metáforas: Quarto, camarim, maquiagem e a própria Lily, que não deixa de ser um reflexo de Nina, que não cansa de sabotar a si mesma em prol da sua arte.
      Assim como um espetáculo de Balé, “Cisne Negro” é bem dividido entre seus atos, valoriza bem seus movimentos, suas cores, e tem uma das trilhas mais harmônicas dos últimos tempos. E enfim, quando se fecham as cortinas, e as luzes vão se apagando, é possível sentir uma sensação pesada, uma dificuldade de se levantar, que só um filme tão especial quanto “Cisne Negro” causa.

5 ESTRELAS